domingo, 31 de julho de 2011

Somos Iguais.


Um dos principais motivos que nos impulsionam a viajar é conhecer coisas diferentes, pessoas, lugares, culturas etc. Isso você já deve estar cansado de saber. Ao procurar outro país para viver esta experiência, tinha curiosidade em saber como é a vida dessas pessoas que vivem tão longe de mim, o que elas podem ensinar, quais são seus objetivos, formas de pensar, entre outros pontos interessantes. Esperamos muitas situações novas e realmente conseguimos, percebemos grandes diferenças em relação aos nossos costumes, à nossa terra e à nossa gente.

Porém em meio à força dessa análise, surge também um ponto que chama bastante minha atenção, ele é simplesmente o inverso dessas convicções, e vem como um grande alicércie de entendimento para toda esta vida e toda visão de planeta que tenho. O ponto é que todos somos iguais, de norte a sul, de leste a oeste, ricos ou pobres, instruídos ou não, somos humanos, somos da mesma espécie e principalmente temos a mesma essência, o mesmo potencial, estamos sujeitos às mesmas dores e alegrias.

Nossa cultura, o lugar que vivemos, são só diferenças superficiais, promovidas por um curto período de aprendizado em meio a determinado espaço. Ao viver num lugar como esse, junto com pessoas vindas da Alemanha, Coréia do Sul, Japão, Hungria, Brasil, entre outros países, sentimos uma mistura em situação neutra, notando que apesar das diferenças, podemos viver em harmonia e a grande diferença entre nós não é mais que um ligeiro desvio superficial.

Na essência, não existem alemães, americanos, chineses, russos, existem humanos, humanos iguais, eles buscam o mesmo bem-estar, buscam a felicidade, sofrem com vícios e limitações particulares a cada um, reagem às mesmas drogas, têm as mesmas necessidades e sentimentos. Há uma mesma sintonia que liga todos nós, infelizmente essa sintonia sofre constante interferência em função do orgulho e do egoísmo humano, pois esse causa as guerras, as injustiças, a intolerância.

Nações não são mais que humanos, alguns mais esclarecidos que outros, mas ambos almejando a mesma felicidade, portanto a guerra é como uma briga entre dois irmãos, um conflito infantil que só causa dor e negatividade, ambos perdem, e aquele que extraiu determinada riqueza a preço de sangue, tende a pagar pela sua impiedade e cair num futuro próximo.

Se eu abraçar alguém no Canadá, não será diferente se eu abraçar alguém no Japão. Se eu mando uma mensagem carinhosa para um Indiano, ele vai ficar tão feliz quanto um Árabe. Sorrimos juntos, sofremos juntos, sonhamos juntos, crescemos juntos, somos uma grande família tentando se entender, impedidos por pensamentos infantis, orgulhosos e sem escrúpulos. Somos pequenos, fracos, necessitamos de pouco mas queremos muito, não nos contentamos com o necessário, queremos estar sempre acima, e não importa o quão em cima estivermos, nunca acharemos a paz dessa maneira.

Pertencemos à mesma nação, à nação humanidade. O operário não é muito diferente do patrão, só estão em posições diferentes devido às circuntâncias da vida, eu não ficaria supreso se o patrão fizesse melhor o trabalho do operário e vice-versa, isso seria por conta de bagagem de vida, algo que os dois têm acesso. O seu ídolo não é muito mais que você, você pode superá-lo, ele é humano, como você, um dia ele era uma criança tola e estupida tentando andar em frente à câmera de vídeo do pai.

Pobres daqueles que sentem inveja por tão pouco, pobres daqueles que se acham superiores por míseros caprichos, pobres daqueles que desperdiçam seu tempo com tamanhas futilidades sem sentido real. Pobres daqueles que não enxergam o prazer do amor e da coletividade, que não se importam com a dificuldade do semelhante ao seu lado, aqueles que passam toda sua existência praticando a mediocridade. Somos os mesmos, humanos, sempre seremos, por mais que o orgulho diga não.

sexta-feira, 29 de julho de 2011

Chegada em Corbenic.


Finalmente eu estava no carro me dirigindo ao Camphill, Guilherme conduzia enquanto Tânia estava no assento traseiro, naquele momento esqueci de toda exaustão e dividia meu interesse entre perguntar várias coisas ao amigo brasileiro ou contemplar a maravilhosa vista do lado de fora. Se antes eu já gostava de viajar de carro e ir apreciando a vista, imagine fazer isso na Escócia, onde os raios suaves do sol de verão pousam na vegetação preservada com esmero e o vento frio vai batento no seu rosto dando as boas-vindas àquela terra rara.

Viajar de carro aqui é simplesmente o máximo, enquanto todos já cresceram vendo essas paisagens e consideram normais, eu fico encostado na janela babando cada metro quadrado de natureza e construções antigas. O trajeto de Edimburgo até o Camphill é cerca de uma hora, e essa uma hora pareceu dez minutos por conta de tanta informação que recebi, mal sabia que estava só começando o bombardeio de vida nova, pessoas novas, lugares novos. Ainda não descobri de onde tirei tanta energia.

Antes de chegar em Corbenic paramos em um pequeno vilarejo para comprar algumas coisas, haveria uma reuniãozinha entre os co-workers naquela noite e Guilherme e Tânia queriam comprar algumas coisas, nem me contive vendo tudo diferente e bati foto até do estacionamento. Já estava rindo comigo mesmo de tanta alegria naquele lugar novo. É uma sensação incrível quando você planeja algo a longo prazo e consegue ver se realizando, por isso que os sonhos são importantes para a vida humana, e quando você alcança esses sonhos, tudo cresce, é como se aquela realização te elevasse em todos os aspectos, como se o espírito desse um salto, ganhando força, vitalidade, sabedoria, grandeza.

Deixamos o super mercado e em poucos minutos chegamos no Camphill. Corbenic tem 5 casas, 3 delas ficam numa casa imensa, como se fosse uma matriz, e duas ficam do lado de fora. Explicarei isso melhor em breve. Como eu estava morrendo de fome, Guilherme me levou a sua casa, onde começou a maratona de cumprimentos e gente nova. Logo de cara o housefather, Bruce, estava do lado de fora e foi o primeiro a conhecer depois de Tânia, ele é o único que me chama de “Leonardo”, quando falei pra ele que podia chamar de “Léo” ele disse que não, preferia “Leonardo”, pois lembra Da Vinci! Ou como ele diz com dificuldade: “Leonáro”. Tudo bem, ele é bem legal, ou melhor, é difícil encontrar alguém rancoroso por aqui, o clima é sempre bom e iluminado.

Depois de Bruce conheci Markus, um co-worker alemão de 19 anos, o que não falta aqui é alemão, tem pra todo lado. Guilherme, sempre prestativo e muito atencioso, foi logo arrumando uma pizza vegetariana que sobrou do almoço, pegou o travessa e colocou no forno, aqui eles não usam microondas. Falei um pouco com Markus e subi com Guilherme para ver a casa. Conheci as acomodações e alguns residentes, uma hora apareceu um correndo sem roupas pelo corredor até o banheiro, levei um susto e no fim achei graça.

A pizza estava quente, comi dois super pedaços sem me importar com nada, a fome era tão grande que se me deixassem do lado de fora da casa eu começava a comer a grama. Terminamos e Guilherme me levou a minha casa, uma das 3 que ficam na casa matriz. Tirei minha bagagem do portamala e fui seguindo ele conversando algumas coisas em português e enquanto subiamos a escada apareceu outro brasileiro, Daniel, que me cumprimentou alegre e voltou aos seus aposentos.

Enfim cheguei em minha casa, Lindsfarne é o nome dela, como outra co-worker brasileira me explicou antes de vir (Monise), aqui parece o filme do Harry Potter, cada casa tem um nome e cada pessoa da comunidade pertence a uma, Lochran, Cottage, Lindsfarme etc. Ainda nem tive tempo de aprender o nome de todas. Guilherme me levou ao meu quarto onde Benjamin, outro alemão, já estava acomodado e aguardando minha chegada, cumprimentei-o e a partir dali seria ele quem ia me ajudar. Agradeci Guilherme e ele foi embora. Benjamin me mostrou o armário com toalhas, me deu umas informações iniciais e conversou sobre um monte de coisas mais, inclusive que ele estava de saída e em breve eu não precisaria dividir o quarto.

Finalmente pude tomar um banho, peguei a toalha e minha roupa limpa, cheguei no chuveiro e avisei comigo mesmo com cautela: “Calma Léo, você precisa tomar banho mas banheiro diferente é sempre perigoso, cuidado onde você coloca a mão”. Todo cuidado é pouco quando você está num canto novo. O chuveiro é ótimo, o banheiro é espaçoso, o vaso sanitário funciona muito bem, o único problema é a falta de chuveirinho, caceta, como eu odeio papel higiênico. Tomei meu aguardado banho e fui pro quarto me preparar para dormir.

O quarto que estou agora é demais, é para duas pessoas, por isso é bem espaçoso, tem um armário gigante, dois gaveteiros, uma mesa bem grande para estudos, uma poltrona bem aconchegante com luz para leitura, duas camas, vários tapetes, chão de madeira e principalmente, uma super vista em frente a mesa de estudos. Mas devo me mudar logo logo, não quero esse quarto, pois além de não precisar de tanto espaço, também não quero dividir meu único espaço individual com ninguém, preciso um pouco de sossego e privacidade. Quando divido quarto com alguém, sempre sinto que estou incomodando e isso me perturba.

Arrumei minha cama, capotei, e deixei meu corpo finalmente descansar, que beleza, que alegria, parecia até que saia fumacinha dos meus ouvidos de tão super aquecido que estava meu cérebro. Dormi durante um bom tempo mas nem tanto quanto eu esperava, não consigo dormir muito quando estou muito cansado, não sei o porquê.

Acordei umas 9 horas da noite e me lembrei que Guilherme tinha me convidado para a reuniãozinha dos co-workers em sua casa, coloquei minha roupa apropriada para o frio do lado de fora e subi a ruazinha que dá até Lochran (casa de Guilherme). Fui abrindo as portas até chegar na cozinha onde o pessoal já tava todo reunido, música rolando, cerveja, rum, e outras bebidas que não sei o nome. Todo mundo gritou quando cheguei, a galera já tava bem animadinha, hehe, gritei também com cara de retardado e sai cumprimentando um por um sem entender nem 20% dos nomes, um mais complicado que o outro.

Ficamos lá algumas horas, foi bom pois conheci logo todo mundo de uma vez num clima alegre e descontraído, fui embora quando o sono bateu e voltei a dormir a espera do outro dia, muitas novidades ainda estavam por vir. Minha cabeça estava turbulenta, muita transição para um dia só, mas devagar tudo ia se encaixando.


quinta-feira, 28 de julho de 2011

Chegada em Edimburgo.


Após o pequeno sufoco de Londres, finalmente eu estava a caminho de Edimburgo, já percebendo o nível de isolamento cultural em relação aos outros passageiros, pois dessa vez não haviam mais brasileiros à vista. Aliviado em função do episódio passado, dormi tranquilo com a cabeça encostada na janela e o conforto de não ter ninguém nas duas poltronas ao lado. Nesse momento eu já estava implorando por um banho, uma comida de verdade e finalmente uma cama para ressuscitar depois de uma longa hibernação.

Do alto do avião já se podia perceber os acidentes geográficos sempre presentes no território Escocês, isso quando o acúmulo de nuves não impedia a visão, o céu da grã-bretanha parece a casa das nuvens, como se aqui elas se encontrassem e se reproduzissem para viajar às outras partes do planeta. Daí a fama do céu cinzento e da garoa constante. O dia 12 de julho estava bonito, claro, como bem deve ser no verão, mas eu já podia perceber a diferença de ares em relação ao nordeste do Brasil.

Cheguei em Edimburgo na tarde deste dia com a missão de primeiro pegar minhas duas malas e ter a certeza de que não foram extraviadas e contactar de qualquer forma Guilherme, o brasileiro que me buscaria no aeroporto, pois precisava avisar que cheguei 4 horas antes do previsto, isso porque calculei fuso-horário em cima do horário exposto em minha passagem sem me atentar de que já estava convertido.

Sai do avião e segui o fluxo dos passageiros até chegar à esteira das malas, onde parei para esperar as bagagens junto com os outros, o tempo ia passando e nada de minhas malas aparecerem, a esteira ficava cada vez mais vazia e minha cabeça mais cheia de preocupação, será que depois de toda a luta até aqui, eu precisaria procurar a TAP e começar a burocracia das malas? Passaram-se mais de 1 hora e meia e nada das malas aparecerem, rodei o aeroporto em busca da companhia aérea sem sucesso, resolvi voltar para as esteiras onde a tripulação de outros voos já se movimentavam.

Sentei desolado, fechei os olhos e comecei a meditar comigo mesmo respirando fundo, não porque não sabia o que fazer, mas porque todas as necessidades de meu corpo estavam no vermelho. Eu ainda não sabia como contactar Guilherme, pois não tive sucesso com o telefone público e não sabia como trocar meu dinheiro pois ninguém queria trocar 50 pounds, assim eu não tinha as malditas moedinhas de que tanto precisava.

Levantei e caminhei devagar movido pela esperança de que as malas iam aparecer, olhei para a minha direita e notei que havia outro setor com outra esteira, mesmo sabendo que aquela outra não era do meu voo, caminhei até lá meio sem propósito, e quando cheguei, um funcionário do aeroporto estava analisando duas malas, uma grande azul e uma média preta, eram minhas malas. “Finalmente!”, gritei aliviado, o funcionário do aeroporto se desculpou pelo erro da esteira, mas eu mal conseguia ouvir de tanta alegria. Eu sou mesmo muito sortudo, de todo o avião, minhas malas foram as únicas colocadas numa esteira errada, em alguns momentos acho que é algum tipo de teste, um reality show, sei lá.

Agora tinha que conseguir as malditas moedas, fui perguntando onde eu poderia trocar meu dinheiro e uma mulher mandou eu ir numa casa de câmbio, não sabia se lá eles trocariam meu dinheiro mas não custava nada tentar. Cheguei no caixa e expliquei a situação lentamente pra moça, acho que ela ficou um pouco sensibilizada, pegou meus 50 pounds e trocou me dando várias moedas de 1 pound. Mais uma etapa superada, agora tinha que escolher o meio de comunicação, tentei usar o telefone público, agora com as moedas, em vão, a chamada nunca dava certo, acabei gastando 1 pound.

Minha última opção era a internet, o aeroporto tinha uns computadores espalhados, mas a maioria estavam ocupados, esperei até algum aparecer livre até que finalmente consegui, sentei animado na cadeira, li tudo que tinha na minha frente pra não fazer besteira e não perder mais dinheiro, coloquei uma moeda e plim! Você tem 10 minutos de internet! Entrei no Facebook quase tremendo as mãos, mandei mensagem pro Guilherme e por sorte ele me respondeu na hora dizendo que sairia do Camphill em 20 minutos. Aproveitei meus 5 minutos restantes de internet pra postar algo dizendo que havia chegado e sentei de novo, agora tranquilo e feliz por tudo ter dado certo.

Não gostava de ficar dentro do aero, era mais divertido ficar lá fora sentindo aquele clima ameno e as pessoas circulando, um bom entretenimento pra minha vista, estava muito feliz e convicto de que agora sim havia chegado, fraco, com fome, sujo, cansado, mas com uma ótima sensação de vitória. Pouco mais de uma hora depois Guilherme apareceu e me levou até o carro onde Tânia, uma co-worker alemã também estava com ele. Bagagem guardada e pé nas estrada, próxima parada, Corbenic, minha nova casa.

segunda-feira, 18 de julho de 2011

Aperto em Londres.


Voltei pessoal, demorei mas voltei junto com meus sinceros pedidos de desculpas por estar impossibilitado de escrever no atual momento de adaptação e muito trabalho que vivo em solo escocês. Amanhã completarei uma semana como voluntário e hoje terei a primeira reunião da casa onde saberei quando serão minhas folgas e todos os pontos importantes de meu cotidiano, algo que seria ótimo, pois o trabalho está sendo bem cansativo.

Mas isso é assunto para mais tarde, agora tenho de vos falar de minha chegada em Londres, num belo dia de céu aberto e um ligeiro vento frio suficiente para forçar-me a esconder as mãos no bolso de meu casaco. Após o pequeno drama que tive por conta da pressão nos ouvidos, o avião continuou descendo e sobrevoando a bela capital inglesa, repleta de grandes casarões e edificações antigas, perdi as contas de quantos campos de golfe vi lá de cima, eram muitos, este momento passou ligeiro e a aeronave finalmente aterrisou em solo britânico, momento esse que me dei conta de que começaria definitivamente a falar inglês.

A nave parou e uma escada foi projetada na porta da frente para os passageiros descerem, lá em baixo um educado senhor funcionário do aeroporto recebia os passageiros com um ligeiro sorriso e muito respeito, vestia aqueles coletes amarelos reluzentes e tinha uma aparência bem inglesa, algo que não é comum no meio de tantos estrangeiros que costumamos ver no aeroporto de Londres. Tem quem diga que Londres tem gente de todo canto do mundo, menos da Inglaterra, vejam só!

Sai da pista dos aviões e segui o fluxo dos passageiros que aos poucos iam se dispersando e me deixando sobre as instruções das placas, essas segui solitariamente até um saguão da imigração (UK Border), vi as pessoas pegando umas pequenas fichas para preencher, peguei uma e coloquei meus dados, nome, de onde venho, pra onde vou, contato etc. Entrei na fila, coloquei minha mala no chão e fui empurrando ela com o pé até chegar minha vez, estava pesada e ficar carregando no o ombro ou mão seria bom para minha coluna.

Finalmente chega minha vez e me dirijo ao guichê oito, onde um homem aparentanto uns trinta e dois anos, olhos azuis e cabelo curto preto verifica meu passaporte e pra onde vou. Pergunta se vou pra Escócia, afirmo que sim e ele aponta para direita, onde eu deveria ir pra fazer conexão, agradeço e sigo o caminho. Atravesso um portalzinho equipado com computador mas desativado e sigo sem entender direito para onde deveria ir, mas se eu tinha passado pela verificação do passaporte o mais sucinto seria seguir até a sala de embarque. Neste momento olho para o relógio e falta cerca de uma hora e vinte para meu voo.

Caminho tranquilo e tiro algumas fotos sem me preocupar, até chegar na entrada da sala de embarque onde tenho que passar pelo detector de metais, remédios, mentiras, maus pensamentos e tudo que você pode imaginar, eles abrem sua mala de mão, vão tirando as coisas, examinando tudo, passando um detector lá dentro, fazendo perguntas, embalando o que está errado, jogando fora o que não pode e fazendo você esperar até ficar tudo ok. Finalmente passei por essa parte e fui caminhando acelerado, faltava cerca de 25 minutos para o horário de embarque (o embarque é meia hora antes do voo).

Passei por toda aquela área que parece mais um shopping de tantas lojas e fui entrando num corredor aqui, pedindo informação ali e finalmente chegando na fila onde verificam as passagens, nossa, a fila já estava gigante, esperei até minha vez assitindo uma família que teve que voltar para fazer alguma burocaria a mais, nesse momento eu esfriei, perguntas começaram a rondar a cabeça e o medo de ser barrado por faltar algo aumentou. Se eu fosse barrado teria que andar quilômetros de volta para resolver o que fosse, faltando cerca de 20 minutos para o embarque. Tinha que está tudo certinho, tudo estava na mão, ela só iria marcar a passagem e me desejar uma boa viagem, tudo correria bem e logo logo eu estaria voando para Edimburgo.

Passam-se alguns minutos e finalmente minha vez chega, sigo em direção à moça, dou minha passagem, ela verifica, para um tempo, faz uma cara estranha, meu coração acelera, ela olha pra mim e diz que eu preciso fazer algum tipo de cadastro a mais, algo sobre uma foto, olhei para o relógio faltando 15 minutos, lembrei do longo caminho que andei até chegar ali, bateu o desespero. Pedi para a moça explicar onde eu deveria ir e enquanto ela falava eu pensava num jeito de fazer tudo mais rápido e consertar a situação.

Porém não tive escolha, ao olhar ao meu redor, a ficha caiu, eu estava sozinho, ninguém me ajudaria, eu estava em Londres, aqui não existe “jeitinho”. Segurei minha mala com força, respirei fundo e parti em disparada por todo caminho de volta naquele momento que seria um dos mais desesperados de minha vida provinciana. Cada dez passos correndo era uma olhada no relógio, o tempo nunca foi tão curto, passava pelos corredores onde as pessoas me olhavam com desconforto, parava para pedir informações sempre que podia e finalmente cheguei no lugar onde tudo começou, lá no rapaz da imigração. Lembrei pra onde ele apontou e fui caminhando devagar tentando detectar meu erro.

Bingo! Havia uma fiscalização exclusiva para voos de conexão, um guichê solitário com uma mulçumana verificando vistos e fazendo perguntas, acelerei os passos e cheguei na fila, só uma pessoa em minha frente, eu estava angustiado, o tempo estava passando, eu ia perder o voo, finalmente chega minha vez e a moça faz perguntas sobre o que vou fazer, que tipo de trabalho é e até quando vou ficar, vou respondendo com falsa tranquilidade pensando comigo mesmo: “Vamo filhota, deixa eu passar, vamo, vamo, vamo”. Finalmente ela me libera, dou alguns passos até chegar num guichê onde tiro uma foto, pego minha mala e continuo a corrida desesperada.

Atravesso um grande corredor que daria direto à sala de embarque, quando chego ao final, um funcionário do aeroporto diz que não posso passar, tenho que pegar o caminho longo onde teria que fiscalizar minha bagagem mais uma vez. Esse funcionário já tinha me ajudado uma vez antes, achei que ele poderia liberar, expliquei que já tinha passado pela fiscalização da bagagem e estava atrasado, mas não teve jeito, fui obrigado a voltar todo corredor. O corredor tinha uma lateral de vidro através do qual se podia ver as pessoas lá em baixo, notei que muitas olhavam pra mim com curiosidade, principalmente as crianças. Faltavam 5 minutos!

Corri, corri, corri, neste momento já estava molhado de suor, com as pernas quase cedendo, afinal de contas já estava bem cansado das duas viagens anteriores mal dormidas e mal alimentadas. Finalmente chego à fiscalização da bagagem, já sei tudo que tenho que fazer, tiro tudo, ajeito o computador, abro a mala, passo rápido e tenho que ficar esperando alguns minutos para os alegres funcionários olharem cada cantinho da minha bagagem. Todo mundo feliz, brincando, falando de futebol e decidindo quem vai olhar a malinha do brasileiro. E eu lá quase tendo um infarto prestes a ficar a deriva em Londres, até que um homem, provavelmente indiano, vem fazer o trabalho com muita calma, tirando absolutamente tudo da minha mala e ajeitando pacientemente tudo que já tava ajeitado desde a primeira vez eu estava ali. Quando ele terminou nem se quer fechei, peguei a mala aberta com tudo bolando dentro e continuei a missão, o tempo já tinha passado em 8 minutos, eu estava totalmente atrasado num país onde a pontualidade é um dos pontos mais marcantes.

Nesse momento as pessoas já estavam abrindo alas pra mim, parecia até que todo mundo conhecia o doido que estava correndo por todo aeroporto, eu já estava vendo a hora de alguém aparecer com um isopor e jogar um gatorade gritando: “Vai láá Lééo! Estamos com você, força! Não desista!”. Depois de muitos “excuse me” and “sorry”, finalmente cheguei falando aliviado pra moça da passagem: “On time...”. Ela olhou com um sorriso no canto da boca como quem diz: “Legal, o que eu tenho a ver com isso?”. Olhei pra fila e agradeci quem me deu licença, eu estava amando tudo e a todos, consegui, consegui.

Entrei na fila, entreguei minha passagem e caminhei vitorioso no túnel que dava ao avião, era só um túnel branco e sem graça, mas isso era o que meus olhos viam, pois meu espírito estava vendo um grande portal de realização e missão cumprida, pelo menos até ali. Eu estava exausto, caminhava cambaleando levemente para o lado, mas carregava um sorriso de pura alegria na boca. Só agradecia a Deus, que alívio, finalmente eu estava embarcando, sentei na poltrona e deixei meu corpo descansar e aproveitar o sabor do dever cumprido. Próxima parada, Scotland!

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quarta-feira, 13 de julho de 2011

Rumo ao Reino Unido, a viagem.


Finalmente aqui estou, sentado na confortável poltrona do meu quarto escrevendo para vocês. Do lado de fora vejo as montanhas, repletas de belas árvores e um clima ameno que me faz ter certeza que cheguei ao meu destino. Antes de falar da viagem, devo dizer que esse lugar é fantástico e minha vida aqui será radicalmente diferente da que eu vivia em Fortaleza, isso deve gerar algumas dificuldades no começo, principalmente com a comunicação e a vida coletiva que dificilmente vivemos na cidade. Mas sem problemas, não tenho nada a perder, posso pagar uns micos aqui e ali, ficar sem entender uma piada ou outra, mas tenho certeza que será questão de tempo.
Viajei na segunda-feira a noite com minha família me levando ao aeroporto, uma despedida muito alegre como bem deve ser. Logo na fila para checar o passaporte a primeira surpresa, ao meu lado estava Rômulo, jogador de futebol e atacante que jogou no Ceará e no Fortaleza há uns anos atrás, estava indo pra Portugal levando um garoto de uns 17 anos. Sentei na sala de embarque esperando a chamada do voo que chegou rápido, fui um dos primeiro a entrar.

Cheguei ao meu assento, no corredor, deixei minha mala de mão e fui ao banheiro, quando voltei meu colega de viagem estava se posicionando, devia ter uns 28 anos e com certeza era Europeu, creio que alemão, desses com cara de mal com cavanhaque e tudo, não trocamos uma palavra, a maior interação que tivemos foi quando senti algumas manifestações digestórias no ar durante a viagem, não é pra menos, o cara só se levantou uma vez em todo trajeto e foi no fim do voo.

A poltrona era pequena e ficava menor ainda com o super braço germânico ocupando todo o apoio. Não consegui dormir durante as 6 horas, fiquei me distraindo com os filmes e joguinhos do monitor de entretenimento da TAP. Sempre me levantava para alongar o corpo, dava uma andada e voltava pra poltrona, não gosto de ficar sentado por muito tempo. A viagem até Lisboa foi sem problemas e adorei ver a capital lusa de cima durante a aterrisagem. O avião parou e os passageiros desceram pra pegar o ônibus que levaria ao terminal, o que gerou o seguinte comentário de um cearense atrás de mim quando coversava com uma jovem tentando mostrar desenvoltura e sofisticação: “Égua, pegar o busão, quando eu chegar em Fortaleza vão perguntar qual foi a primeira coisa que fiz ao chegar na Europa e vou ter que dizer que foi pegar o busão (risos)”. Isso sem contar com os comentários sobre as roupas dos passageiros europeus presentes no voo com tom de gozação, como se ninguém soubesse português e quem soubesse iria rir junto com ele. Que lástima.

Cheguei na fila do passaporte, estava imensa e demorou um pouco até chegar no guichê, um fato curioso foi que na mesma hora chegou um voo de Senegal e a fila ficou repleta de africanos usando suas roupas típicas, cada um mais diferente que o outro, gostaria de dar detalhes mas meu vocabulário sobre vestuário não é muito abrangente, mas pense em algo que dá vontade de pedir pra tirar uma foto, mas não quis cometer essa indelicadeza que poderia soar bem pior do que eu imaginava.

Não me senti bem no aeroporto de Lisboa, não gostei do tratamento dos portugueses, sempre muito grossos e impacientes, com raras exceções. Teve uma funcionária do aeroporto que cheguei educadamente perguntando onde era o lugar que eu procurava e ela respondeu bem arrogantemente apontando sem se quer levantar a cabeça e olhar pra mim: “Não sei, tem que ver lá!”. Cheguei a achar engraçado e sai rindo discretamente.

O voo para Londres estava repleto de brasileiros, havia um grande grupo de católicos fazendo uma peregrinação pela Europa, a maioria de idade avançada, isso fez com que o trajeto parecesse um voo doméstico brasileiro comandado por potugueses (TAP). Dessa vez fui na janela e finalmente consegui dormir, coloquei meus óculos escuros, tirei meus tênis e mandei ver, só parei para comer. O avião já tinha começado a descer quando acordei com uma forte pressão no ouvido direito, tentei engolir saliva para tentar aliviar (sempre funciona) mas nada aconteceu, a pressão começava a aumentar, na medida em que o avião descia a dor ia ficando mais insuportável, comecei a temer que algo acontecesse, pois estava com uma dor desesperadora, comecei a cogitar a possibilidade de chamar a aeromoça, mas tentei aguentar, comecei a rezar forte, Londres ia aparecendo e minha visão ia escurecendo de dor, comecei a transpirar de leve, acreditava que era só o avião descer um pouco e melhoraria, mentalizei e implorei para que aquilo passasse e felizmente passou, que grande alívio, foi como se alguém tivesse tirado uma bola de baseball de dentro do meu sistema auditivo.

Finalmente eu estava no Reino Unido e finalmente deixaria de ouvir português, bom quando você quer aprender, mas não quando você é um brasileiro de 19 anos sozinho tendo que passar por uma das imigrações mais meticulosas do planeta e entender cada lugar que se deve ir para finalizar toda a burocracia em menos de 1 hora e meia, sabendo da fama de pontualidade dos ingleses, é digital aqui, passaporte lá, foto pra cá, fomulário pra já etc. Passei um sufoco de chegar suando e agradecendo a Deus no avião, mas isso só contarei no próximo post. Abraço a todos!

quinta-feira, 7 de julho de 2011

Vou.

Ora amigo, olhe aqui, enxergue meu engenho de sonhos, desses aguardados com paciência, planejados com afinco, imaginados com prazer. Tenho utilizado as melhores ferramentas para construir esta engenhoca e logo logo poderei dar a partida e vê-la caminhar por sobre os terrenos mais irregulares. Quando você menos esperar estarei longe, longe de tudo aquilo que fazíamos, riamos, vivíamos. Buscarei outros caminhos e outros cenários, experimentarei novos sabores, dos mais doces aos mais amargos.

A estrada é escura e só eu mesmo posso iluminá-la, por isso juntei tanta luz esses últimos tempos, para que não faltasse no meio da estrada, para que eu não me perdesse nos momentos de angústia, para que eu não precisasse pedir emprestada a ninguém, poupando assim minha incômoda alma solitária. Solitária por opção, opção de reinar sobre si mesma, de entender os embaraços mais embaraçados da intimidade.

Oh sim, fecho mais um ciclo, satisfeito com meu saldo, lucrei bastante com poucos investimentos, encontrei força para as novas provas, e assim partirei consciente do que deixei para trás, tudo devidamente preenchido. Meu coração vai livre, livre para amar, para viver, para vencer, para perder. Livre para o que der e vier. Livre para ser o que é, o que sempre foi. Não mande me procurar, pois onde quer que esteja, estarei feliz e lembrar-me-ei de tudo.

E quando regressar trarei histórias para contar e sabedoria para ensinar, e assim sentirei a força de meu espírito enaltecido por conta própria e viverei na brisa de meus pensamentos de paz e benevolência. Foi isso que desejei, isso que busquei e isso que alcançarei. Vou embora, firme, forte, sem rancor, limpo, esbelto de vida, sincero e feliz, vou.

terça-feira, 5 de julho de 2011

Estou quase lá!


Nunca estive tão próximo da Europa, faltam apenas seis dias para o embarque, creio que passará voando. Quase tudo pronto, faltam só mais alguns detalhes para fechar a mala, escolher o que levar na mala de mão, ir na casa de câmbio trocar o dinheiro e aguardar o momento tão esperado.
Não sei se postarei de novo até a hora de ir, creio que sim, mas se não for possível, sejam tolerantes, afinal, estarei ocupado com despedidas e preparativos que ainda devem ser feitos. Neste momento vou postar textos pequenos devido ao tempo e o período de transição, mas depois da adaptação voltarei a enchê-los de leitura, para o mal dos preguiçosos.
Hoje é terça-feira, dia que chegarei na Escócia. Embarcarei na segunda-feira direto para Lisboa via TAP e ficarei esperando algumas horas até o vôo rumo a Londres. Estou ficando um pouco ansioso, quero viajar logo. Chegou o momento, depois de muita luta, parece que enfim vou conseguir, que Deus esteja comigo. Um abraço a vocês, depois volto com mais notícias!