sábado, 26 de dezembro de 2015

Habilidade de Esquecer.

Interessante como vamos mudando e desenvolvendo novas formas de lidar com a vida. Interessante como, ao passar do tempo, conseguimos superar melhor as quedas e as decepções, assim como recanalizar nossas energias. Parece que temos cada vez mais controle sobre nós mesmos, mesmo que ainda sejamos pequenos e vulneráveis. E como isso é bom, quanto mais forte ficamos, mais livres nos tornamos. Deveríamos ser gratos por todas as nossas quedas, pois apesar de tudo, algo maior existe além desta vida.

Saber que não existe mal que dure pra sempre é um preceito alicerce para compreender os movimentos da vida. Problemas não devem ser ignorados é claro, eles devem ser explorados e superados, como uma questão difícil de matemática, talvez você ainda não consiga resolvê-la, então você deixa ela por um tempo para lidar com algo mais fácil e mais ao seu alcance, mas em algum momento você será capaz de voltar a ela para resolvê-la com efetividade.

Poucas sensações são melhores do que perceber que você não é tão vulnerável como foi um dia, que o mundo pode lhe sobrecarregar um pouco, mas que diferentemente da situação passada, você tem condições de manejar a questão e encontrar soluções. Como diz aquela velha frase norte-americana, “Freedom is not Free”, e como diria Roger Scruton, “A felicidade requer sacrifício”. Talvez Ayn Rand discordaria desse negócio de “sacrifício”, mas neste ponto me inclino a concordar com Scruton.

sexta-feira, 25 de dezembro de 2015

Um Natal para o Belo.


Desde que minha avó faleceu há alguns anos, o Natal nunca foi o mesmo. A família agora celebra separadamente, sempre com algum lugar matriz, mas que não representa aquela realidade que se outrora. Por um lado perdeu-se os festejos familiares, por outro ganhou-se o silêncio e a paz que também me fazem refletir sobre esta data.

O Natal, o dia 25 em especial, parece conter uma energia especial, que transcende quaisquer problemas que afetem esta humanidade, a paz de espírito se torna presente, algo acontece. É um dia para se desligar dos fardos terrenos e respirar o que a divindade nos trás de melhor, alimentar os bons sentimentos e contemplar o belo. Cá estou eu apreciando a música barroca do português João Rodrigues Esteves, belíssima por sinal. Faz-me lembrar as velhas cidades da Europa.

Gosto de ficar sentado em meu quarto, ouvindo a música, observando os detalhes de meu limitado mundo e tentando expandi-lo com a imaginação e todas as faculdades que o criador me deu. Sigo com minhas leituras, penso em lugares belos, pessoas honradas, a arte com bom gosto que foge dos vacilos da pós-modernidade. Às vezes é bom trazer um pouquinho de céu para nossa Terra, mas não se pode exceder a dose, pois a vida é aqui e agora, o céu vem depois. Um Feliz Natal a todos.

quarta-feira, 18 de novembro de 2015

A Ilusão do Secularismo.

Às vezes fico impressionado sobre como minha geração trata a religião e os incentivos espirituais que permeiam a formação e a manutenção de uma cultura. O processo de laicização da sociedade, sido iniciado pelas ideias iluministas, e conduzido pelos adoradores do Estado moderno, mais especialmente os maçons, que sempre estiveram em posição de diminuir a autoridade da Igreja como reguladora das relações humanas, colocou nossa civilização em um estado de confusão espiritual sem precedentes, um mundo paralelo onde o cristianismo é só mais uma mera religião.

Há poucos dias vi algúem compartilhando no Facebook um abaixo assinado para que religiosos fossem proibidos de se candidatar a cargos públicos na política. O absurdo nem é tão grande pela falta de apreço pela liberdade dessa juventude anti-religião, mas a ilusão de que o mundo não se sustenta em crenças espirituais, de que tudo está no Estado e na ciência, como se tudo fosse relativo, o bem e o mal, o certo e o errado, tudo é construção social e o conservador é um inimigo do incontestável progresso da civilização.

Ora, o que vejo nessa geração não é um processo de libertação, mas sim uma outra opção de servidão, a servidão das ideias frouxas que mudam do dia para a noite, que não sobrevivem ao tempo, que estão sempre em mutação, não uma mutação lenta e salutar, mas uma mutação confusa e prejudicial para qualquer mente que busca um certo equilíbrio. Esta juventude que não crê em algo além desta vida, coloca todas as suas esperanças de um mundo melhor no aqui e no agora, é um exército de pessoas insatisfeitas, sedentas por prazeres mundanos que não os levam a lugar algum.

Não é de se estranhar que a diminuição do poder da Igreja no mundo ocidental está diretamente ligado ao aumento do poder do Estado e à formação de uma aristocracia seleta que se alterna no poder. Os pobres iludidos “jovens do povo” acham que vão assumir o poder com a democracia e a luta em favor dos pobres, uma baita ilusão, o máximo que vão conseguir será formar uma nova elite, tão déspota e concentradora como a anterior.

Mesmo com a ascensão do estado laico, o cristianismo ainda está presente no subconsciente dos ocidentais, esta religião, que construiu nossa civilização e abriu as portas para o desenvolvimento humano desde a queda do Império Romano, permeia nossa leis, nossos costumes, nossos relacionamentos, nossos planos de vida, e inclusive nossas pequenas decisões do dia-a-dia. Ser contra religião não é ser a favor da neutralização da política, é apenas ser a favor de outras ideias que não suportam as ideias religiosas e se utilizam da carcaça estatal para ocupar seu espaço e suprimir a liberdade em prol de seus próprios interesses.

sábado, 24 de outubro de 2015

A vida das mulheres no Norte/Nordeste.

Esta semana estava em uma calçada nas proximidades da Av. Dom Luís, um flanelinha havia me oferecido seus serviços, lavar o carro ao preço de R$10,00, achei que valia a pena e fiquei ali assistindo o seu trabalho ao mesmo tempo que conversava e perguntava a ele o que o dava mais retorno, lavar carro ou vigiar carro. Não gosto de flanelinhas que “vigiam” carro, mas acho que lavá-los é um trabalho digno e de muito valor, inclusive isso rende uma boa grana para brasileiros de classe média que vivem nos EUA. Ele não entendeu a pergunta, apesar de minha insistência, começou a falar aleatoriamente sobre seus clientes e como funciona seu trabalho, confuso, sem ligar bem as ideias.

Enquanto aguardava sentei em uma mureta, já era noite, e eu observava a rua. Na outra esquina oposta à que eu estava havia outro flanelinha, este mais jovem, aparentemente saudável, moreno, de chinelas, com o peito estufado e semblante intimidador. De repente uma jovem desce do ônibus na avenida e vem caminhando rua adentro, sem usar a calçada escurecida pelas árvores, andando rápido pelo asfalto, com cara fechada, cabelo preso, e um ar de guerrilha como quem tem a missão de chegar em casa o mais rápido possível antes que alguma ameaça da selva de pedras a detenha.

Coincidentemente enquanto ela caminha, nosso flanelinha jovem toma o caminho contrário, de forma que os dois se cruzam, estando um em cada lado da rua, separados por aproximadamente dez metros. A distância entre os dois e a introversão da garota não eram suficientes para se evitar algo que é uma constante nas cidades do norte e nordeste (não que isso não aconteça no sul, mas a frequência por aqui é maior). O flanelinha começa a gritar, de forma tribal, tentando chamar a atenção da garota: “Ei! Ei! Ei!”, como um homem-de-neandertal que tenta intimar a fêmea para o coito.

A menina ignora e apressa o passo, o flanelinha continua seu trajeto, agora mais próximo de nós, sorrindo e se divertindo com aquele pequeno prazer de se sentir forte e superior em meio à sua vida miserável. Observei o seu semblante e fiquei intrigado com a naturalidade com a qual aquele indivíduo conduzia seus atos. O que era intransigente e repugnante para mim, para ele era algo comum, que fazia parte de seu dia-a-dia, do seu estilo de vida, da concepção que ele tem de mundo, e da leitura que ele faz da relação entre homens e mulheres.

Se ele fosse um homem branco, provavelmente seria escrachado, condenado, ridicularizado e boicotado. Mas este não é o caso, ele é um brasileiro nativo, possivelmente com alguma influência europeia/africana, mas com certeza a predominância de sua descendência biológica/cultural é indígena. E neste momento você já deve estar incomodada e me achando um racista, simplesmente porque eu fiz uma pequena separação étnica para que possamos entender melhor quais são os valores que circundam nossa sociedade.

A maioria das mulheres que entendem o conceito de “assédio” e sofrem com ele em minha cidade, Fortaleza, são de descendência europeia, e não tem nenhum problema em assumir que sua descendência é europeia, isso não faz de você parte da elite branca paulistana alienada coxinha do mal, provavelmente sua família era muito pobre ao decidir tentar a vida no Brasil. Essas mulheres não só sofrem com os assédios, como também vivem em um inferno psico-social, pelo fato de acreditarem que a sociedade, ou seja, o todo social é machista, intolerante, misógino e todos esses termos que ganharam tanto espaço nas últimas décadas.

Negras e brasileiras nativas também sofrem com isso, porém há uma grande diferença: qual dos grupos étnicos brasileiros chegou a um estágio de desenvolvimento cultural onde a igualdade de gêneros e o respeito à mulher é um valor já consolidado? Sim, você sabe, os ascendentes europeus e eventualmente os cristãos. Não é muito difícil perceber isso, observe como se estrutura a relação de uma família de descendência europeia e uma família de descendência nativa brasileira. Na primeira, normalmente, você perceberá uma relação de igualdade, um verdadeiro companheirismo, onde os dois têm voz, e não raro as mulheres predominam como líderes de suas famílias, sendo responsáveis por decisões finais. Já o segundo grupo você perceberá que outros valores imperam, sendo o resultado deles uma verdadeira submissão da mulher ao seu marido, além de uma superioridade geral do homem frente à mulher, com exceção de alguns grupos como os índios do Alto do Xingu, onde as mulheres forçam os homens a fazerem sexo, tiram sarro e ridicularizam suas fraquezas. Evite generalizações, muitas famílias de descendência nativa têm uma relação muito boa, principalmente aquelas que absorveram certos valores cristo-europeus. Isto não é propaganda religiosa, mas falar sobre a formação cultural da sociedade brasileira sem falar em cristianismo é como falar sobre ciência sem falar em átomos. Por outro lado também existem famílias de descendência europeia que não cultivam a igualdade de tratamento entre os gêneros, o que também é normal, pois durante muito tempo isso também fez parte da cultura do velho continente (cada grupo tem um desenvolvimento diferente e por vezes aleatório).

Portanto antes de falar que uma sociedade é machista, nomes têm de ser dados aos bois, principalmente em uma diversidade cultural como a de nosso país. Este papo de “cultura brasileira” é uma balela, somos um país formado por diferentes grupos que buscam viver fraternalmente entre si por meio de uma legislação comum (característica inerente às Américas), sendo o processo de miscigenação variante e indefinido, concentrando-se nos grandes centros urbanos, tendo seu estágio mais avançado em São Paulo, onde a força da economia e da cooperação voluntária deteriora comportamentos tribais e rivalistas, que são mais comuns em regiões menos desenvolvidas do Brasil, como o norte e o nordeste. Coloque uma família da tribo dos Amondauas em um mesmo ambiente que uma família de descendência russa do interior do Paraná e você verá que o conceito de unicidade brasileira é uma fantasia coletivista, criada por determinados indivíduos visando objetivos políticos, a maior parte deles positivistas, e mais recentemente marxistas (que ao mesmo tempo que dividem a sociedade em grupos, também incitam um sentimento coletivista nacionalista).

A mulher de descendência europeia no Brasil tende a sofrer muito mais que a nativa, pois a ela foi ensinado que existe uma unicidade de valores e que a relação entre homem e mulher deve ser igualitária, e isso vale para não só esta sociedade, mas para o mundo inteiro. Está explicitamente determinado. Portanto, esta mulher, portadora de um implacável senso de justiça, e tomada por determinadas ideias que ela considera verdade, assumirá uma posição de soldado em pé de guerra, e através de sua infinita benevolência trabalhará para difundir a palavra da salvação entre aquelas oprimidas que não conhecem a verdade e não deveriam se submeter aos caprichos de seus tiranos maridos.

O que nossas heroínas se recusam a compreender, é que não há uma unicidade de ideias e de verdade, não há um estágio de evolução final pré-definido para toda a humanidade, e se uma civilização alienígena machista altamente desenvolvida invadir a terra, toda a sua teoria histórica progressista entrará em convulsão. Nossas justiceiras têm dificuldade em compreender que nossa sociedade é formada por grupos diferentes, que sustentam valores diferentes, e consequentemente a relação entre homens e mulheres terá uma grande variação de cultura a cultura. Algumas mulheres nativas brasileiras vão desenvolver um senso de independência e entrar em conflito com a predominância cultural de seu grupo, porém outras mulheres do mesmo grupo vão viver uma vida plena e feliz estando submissas aos seus maridos e inclusive lutando pela manutenção desta estrutura, colocando-se contra aquelas que se mostram rebeldes ao coletivo.

Quando uma mulher é assediada por um homem de descendência europeia isto é um escândalo, pois este homem, supostamente, deve seguir valores europeus e cristãos, isto é o que a sociedade espera dele, isto é o normal, ele deve saber que violar a individualidade de uma mulher é imoral e altamente condenável. Mas quando um homem de descendência nativa assedia uma mulher, mesmo uma mulher de descendência europeia, a visão sobre ele é muito mais branda, porque ele não teve a educação adequada para mudar seus comportamentos tribais, portanto a culpa não é dele, e sim daqueles encarregados de instaurar um comportamento civilizado na sociedade, ou seja, do Estado.

Como atribuir comportamentos criminosos a um grupo étnico é considerado racismo (e de certa forma isto é mesmo racismo, o certo seria avaliar os indivíduos), as mulheres politizadas precisam de uma válvula de escape, principalmente quando seus representantes já estão no poder, e esta válvula de escape é a coletivização deste comportamento, pois agora o comportamento não está sendo atribuído a determinados indivíduos ou grupos, ele está generalizado por toda a sociedade: “a sociedade é machista”. Gerando um grande sentimento de culpa nos homens que nada fizeram e uma espécie de mobilização geral, que na teoria parece ótimo, mas na prática é um desastre, o resultado é que os homens igualitaristas acabam se tornando mais afeminados (nada contra homens afeminados) e extremamente cautelosos em seguir um “código do bom homem não-machista”, e aqueles indivíduos e grupos que são os grandes protagonistas da sociedade machista são protegidos, pois a condenação dos mesmos seria considerada racismo e imposição de ideias. No final, o resultado é uma briga interna entre ascendentes de europeus, em que o flanelinha do início da nossa história dificilmente será influenciado.

Mas com esta breve investigação sendo feita, onde quero chegar? O ponto é que a coletivização do machismo é completamente equivocada, e as mulheres politizadas lidariam muito melhor com a diversidade da sociedade em que estão inseridas se entendessem que este país é formado por diferentes grupos, ou melhor, por diferentes indivíduos. A mulher que mora em uma grande cidade do norte e do nordeste, deve compreender que ela não está inserida em um ambiente europeu, como possivelmente é em sua casa ou qualquer lugar onde ideias europeias da relação entre homem e mulher predominam (como em uma casa de família afrodescendente cristã ou de alguma forma europeizada). A mulher cearense sofre muito mais com machismo e assédios do que a mulher gaúcha, até porque os gaúchos exterminaram grande parte da população nativa ao ocuparem o Rio Grande do Sul. Repare, eu não estou dizendo que os europeus não são machistas, mas a submissão da mulher de descendência europeia é muito menor ou inexistente em relação à mulher de descendência indígena ou afrodescendente. 

Se uma mulher bem aparentada for a um estádio de futebol em São Paulo, Belo Horizonte ou Curitiba, e depois for a um estádio de futebol em Fortaleza, Belém ou Recife, perceberá uma diferença gritante no tratamento que receberá dos homens (isso variando de setor pra setor, é claro). Isto não quer dizer que os sulistas são superiores, isto apenas indica uma predominância de grupos culturais diferentes, o sul é mais europeizado e o norte/nordeste é mais nativo. É possível introduzir uma ideologia de igualdade de gêneros nesta população nativa, mas isto demorará décadas para ter resultados, pois a superioridade masculina faz parte da formação cultural deste grupo há séculos, talvez milênios. O pudor de se evitar olhar diretamente para partes íntimas de mulheres é muito mais comum nos europeus do que nos nativos sul-americanos, os europeus se condicionaram a este comportamento, por outro lado, os árabes acharam mais conveniente uma cultura onde a estrutura física da mulher é ocultada por uma vestimenta dos pés à cabeça, e não pela “correção” do comportamento masculino.

O sofrimento da mulher urbana nordestina parte de uma completa indisposição social, onde os seus valores só predominam dentro de casa e em ambientes privados (escola, clube, grupo religioso etc), diferentemente do que acontece em espaços públicos como ruas e transporte coletivo, por exemplo. Mas o que mais agrava esta situação é que o predomínio da cultura coletivista faz com que essas mulheres exerçam enormes expectativas civilizatórias na população nativa (o que ainda levará décadas para acontecer), quando uma mulher de descendência europeia é cantada por um flanelinha nativo, o resultado é, não só o medo, mas uma perturbação, porque além de sofrer o assédio, ela não pode retaliar e/ou condenar o responsável pelo ato, pois isto seria considerado racismo, e no Brasil, diferentemente dos EUA, a diferenciação de grupos étnicos fere o politicamente correto. A mulher branca americana evitará utilizar o transporte público de bairros afrodescendentes, e isto é um direito dela, pois a integração não é obrigatória em um país onde se respeita as liberdades individuais, este não é o caso do Brasil, onde assumir um posicionamento étnico europeu é uma imoralidade, este privilégio só pertence aos afrodescendentes e indígenas, caso você pertença a esses grupos, tem total liberdade de exercer o seu orgulho e diferenciação.

A minha intenção com este texto não é combater o machismo, pois acredito que o desenvolvimento de uma cultura igualitária entre os gêneros é algo natural, que a partir de algum momento será predominante no Brasil, não que isso seja uma verdade absoluta, pois o desenvolvimento humano é imprevisível. O meu real objetivo é oferecer um ponto de vista mais descentralizado sobre a relação entre homem e mulher em nossa sociedade, rompendo com o politicamente correto e oferecendo uma visão mais específica sobre as origens do machismo em nossa sociedade, na tentativa de isentar as mulheres do fardo coletivista que gera tanto mal-estar. A forma como esta questão é tratada nesta parte do Brasil sofre com certa contradição, pois ao mesmo tempo em que o machismo é condenado, os maiores responsáveis pela cultura machista são protegidos, e isto é só um exemplo sobre como o assunto é tratado incoerentemente para que deslizes ideológicos sejam evitados.

Para viver melhor nesta sociedade, a mulher nordestina precisa de uma compreensão mais abrangente do que a pura agenda feminista que é aplicada a qualquer país e qualquer esfera. Ela precisa compreender que seus valores (europeus) não são predominantes, e que esta mudança é gradual e lenta, não adiantando muito suas intervenções enérgicas em seus próprios grupos privados (como em suas redes sociais, repletas de pessoas que compartilham os mesmos valores). Em outras palavras, viver nesta parte do país não é o mesmo que viver na França, Londres ou Berlim, ou ela entende a conjuntura deste ambiente e se dedica a uma mudança gradual, ou ela viverá com a cólera da revolta por toda sua existência (caso de algumas feministas), ou mesmo terá que se mudar para outras partes do país ou do exterior, como fez minha irmã, que mora em outro país há dez anos, entre outros fatores, por não se ajustar à cultura predominante local. No mais, uma melhor compreensão da composição social de nossa região e um posicionamento mais firme contra os grupos de culturas divergentes daquela que sustenta a igualdade de tratamento entre os gêneros, seria de grande benefício para que as mulheres sedentas por justiça continuassem a sua empreitada de uma forma mais racional e menos politicamente correta, dando nomes aos bois e evitando que mais injustiças fossem elevadas ao patamar de “luta pela igualdade”.

sábado, 22 de agosto de 2015

Politicamente Correto.

Francis permanecia ao centro do elevador ao som de música suave, observando a mudança de marcação dos andares e aguardando sua chegada ao térreo. Era uma sexta-feira, dia de happy hour, ele não era de muitos amigos, seus colegas pouco apreciavam uma bebida ao fim do expediente, alguns muito focados no trabalho, outros indo para casa com pressa para encontrar a família. Deixou o prédio e sentiu a friagem em sua face ainda aquecida, não queria a solidão de seu apartamento ainda, resolveu andar pela cidade. Observava as pessoas, perguntava-se o que as moviam, quais eram seus objetivos, seus hobbies, do que gostavam de conversar? Imaginou, apreciou, ignorou e seguiu adiante.

Andava em bom ritmo até que de relance viu uma grande janela de vidro à sua esquerda, percebeu que era um bar, o movimento era bom, mas ainda estava bem vago. Adentrou o local e resolveu tomar algo para pensar em frivolidades que provavelmente esqueceria no dia seguinte.

- Whisky com gelo por favor. – cumprimentando o barman com olhar amigável.

Tomava sua bebida a goles lentos no balcão enquanto observava do outro lado uma moça, tinha o cabelo curto até a metade do pescoço, usava uma blusa azul marinho com os ombros à mostra, o sorriso não era tão deslumbrante, mas tinha um charme contido muito atrativo. Observava como um homem a abordava. A figura, mais jovem que ele, parecia conhecer seu terreno e o que fazia, arrancava risos e desconcertava a moça. Francis notava como ela mexia as mãos, apertava os dedos entrelaçados como quem tenta se retrair, mas um ar de entusiasmo poderia ser percebido em seu olhar e suas expressões.

Após poucos minutos o rapaz parecia ter convencido a moça a sair dali, como alguém encarregado de fazer aquilo por excelência. Os dois se levantaram e ela se preparava para pagar o que consumira quando o rapaz interveio e pagou ele mesmo. A moça ficara desconcertada, mas bastaram algumas palavras gentis para que aceitasse a interferência de sua nova companhia.

Francis observava e tentava entender porque não tinha a mesma desenvoltura com as mulheres, o porquê de até aquele momento ele não se considerar realizado neste campo da vida. Não que fosse algo necessário, não que ele precisasse daquilo, é verdade que por vezes imaginava como seria uma vida a dois, mas nada que o colocasse em estado de sofrimento, sua curiosidade era acompanhada de indiferença. Lembrava que os relacionamentos que tivera não foram tão excitantes como se imaginava, eram experiências agradáveis, mas ele sentia que não sabia fazer aquilo, todo esse negócio da conquista, da sedução, da presença masculina, tudo isso parecia um hostil campo de provas para ele. Era um homem contido, moderado, muito prudente antes de tomar qualquer decisão, preocupava-se com o que pensariam dele e tentava andar na linha da figura exemplar de um homem que se pode confiar. Sujeito de bom coração, embora aprisionado em seu próprio cárcere de boas condutas.

Já estava prestes a terminar seu drinque quando um leve tapa em suas costas o surpreende:

- Fala Francis! Happy hour da solidão?

- Solidão é bom para pensar Markus.

- Você não tem família cara, pode pensar durante o final de semana inteiro. – Chamando o garçom com um rápido aceno.

Markus entrou na empresa naquele mesmo ano, acabara de concluir uma pós-graduação em finanças e ser contratado em função de seu destaque em uma corretora de valores. Completara trinta anos e aparentava exatamente trinta anos, tinha um ar de autonomia e uma firmeza em seus gestos, fazia questão de roupas elegantes, não pensando nos outros, ele apenas se sentia bem assim.

- Você também não tem família novato, vai voltar pra casa da sua mãe no fim de semana? – Disse Francis com ironia.

- Bem que eu queria, mas tenho planos a partir de hoje. – Olhou para o canto do bar onde duas mulheres conversavam e se divertiam, demonstrando a Francis aonde iria.

- Hum, já entendi. Duas? Precisando de alguém pra completar o grupo? – riu com discrição.

Markus abriu um sorriso, colocou a mão no ombro de Francis e disse como quem tenta consolar um adolescente frustrado:

- Fran, Fran... Essa aí vai encontrar o namorado assim que saírmos daqui, mas mesmo que estivesse solteira, eu teria que pensar muito antes de colocar sua locomotiva naqueles trilhos.

- O que quer dizer?

- Eu não gosto de constrangimentos.

- E por que isso seria um constrangimento?!

Markus se aproximou de Francis e disse:

- Francis, você é um grande homem, ninguém tem dúvidas disso, basta ver como te tratam e te respeitam na empresa. Mas aquela ali é a Júlia, Júlia não está solteira, mas se estivesse, você pode ter certeza que ela teria mais de uma opção de escolha caso quisesse se envolver com outro homem de novo.

- Não peguei seu ponto. – Olhar intrigado.

- Entenda, existe um mercado, você entende bem sobre mercados, não é? Pois bem, para se destacar no mercado você precisa de competitividade, ser diferenciado, colocar na cabeça de seu cliente o por quê de seu produto ser a melhor opção. O que acontece quando seu cliente não tem muitas opções?

- Ele escolhe meu produto e eu tenho o poder da barganha para colocar minhas condições.

- Exato! E se o cliente tiver muitas opções você vai ter que suar a camisa! Você precisa de um diferencial. Cara, a Júlia é uma mulher linda, inteligente, gentil, toca até piano! – colocou as mãos sobre o balcão dedilhando como quem toca um teclado. – Se ela estivesse solteira, no dia seguinte haveria dez caras no pé dela. Eu sei que você entende muito sobre o mercado de cabos de cobre para redes elétricas, mas eu tenho que ser sincero com você, no mercado dos relacionamentos você conseguiria apenas o cliente sem opção.

Francis olhou desconcertado como quem resiste às considerações de um jovem. Pensou um pouco e falou:

- E por que você chegou a essa conclusão?

- Fran, você é muito...er...bonzinho.

- Ahh, não vem com essa senhor tutor do amor. – Recusando a conclusão de Markus.

- Vai dizer que você não pisa em ovos quando está com uma mulher? Vai dizer que você não fica ensaiando o que vai dizer antes de encontrá-la? Vai negar que você deixa ela dividir a conta do jantar com medo que ela te ache machista por pagar a conta? Vai negar que você segue todas as regras de boa conduta se aprisionando no medo de fracassar?

- Bem, não é tão assim...

- Seja honesto consigo mesmo Francis, você tem que sair do politicamente correto, até a mais ética das mulheres gosta de uma sacanagem.

- Meça essas palavras.

- Viu só?

- Viu só o que? – Francis finge não entender.

- Eu que sou seu colega já estou entediado conversando com você, imagina uma mulher pensando se ela pode ou não te considerar um cara decente para o futuro. Não seja tão previsível Fran, mulheres não gostam disso, mulher gosta do cara que paga a conta, que banca o final de semana, que demonstra controle sobre a situação e surpreende nas ocasiões mais inesperadas. É uma mistura de poder e perspicácia.

- Cara, eu discordo completamente, bancar o final de semana? Nós estamos em 2015 meu caro, isso já passou, as mulheres são independentes.

- Fran, Fran, suas palavras só confirmam sua ingenuidade. Esse papinho é o que a sociedade quer que você acredite, é o que foi te ensinado na escola desde que você era um adolescente, a realidade é completamente diferente!

- Eu sempre dividia as contas com a Amanda. – Disse Francis como quem prova o contrário.

- Onde está a Amanda agora?

- Não sei, acho que vai casar com um fazendeiro do interior...

Markus se debruçou no balcão e observou Francis pensando sobre o que ele mesmo dissera.

- Ah cara, isso não tem nada a ver.

- Fran, toda essa onda progressista do século XX tentou convencer a sociedade de que a mulher é uma figura altamente autônoma e livre de todo passado conservador em relação aos relacionamentos. Aos poucos fomos educados a conversar com as mulheres como verdadeiros cirurgiões da comunicação, temos que ter cuidado com cada palavra como se um pequeno deslize fosse motivo de escândalo e constrangimento eterno perante a sociedade. Você, Francis, é o resultado do século XX, um homem sem sal, sem graça, preocupado com todo o estatuto do politicamente correto. Você é o tipo do cara que vai receber elogios de todas as colegas de trabalho, da ativista feminista da faculdade, da mocinha rebelde de calça furada no metrô, vai ganhar um monte de curtidas compartilhando o vídeo fofo do Duvivier, mas no final das contas meu amigo, você será isso que estamos vendo, uma alma solitária em plena sexta-feira se perguntando porque nenhuma mulher te olha como olha o cara ao lado. Vai ficar achando que o mundo é cruel e injusto, que um homem bom que nem você merecia mais, vai ficar cada dia mais chato e quando se deparar com um playboy cercado de mulheres vai se roer de inveja e condená-lo por não ser tão virtuoso e moderado como você. Aos poucos se tornará um arrogante e se fechará deste mundo em sua solidão, que nada mais é do que a falta de coragem de encarar a realidade como ela é.

- Porr* Markus!

- Sai dessa Fran, rasga este estatuto de boa conduta e encara a vida com naturalidade, você não precisa virar um fanfarrão, mas deixe sua personalidade transparecer meu amigo. Nada como uma dose de espontaneidade em um cara já capacitado como você. Pega aqui meu telefone, amanhã vamos sair, vou te ensinar a arte de falar baixaria sem perder a classe.

- Não sei não...a última vez que tentei ser espertão levei um empurrão e caí na poça d’água.

- Então teve baixaria de sobra, você só esqueceu a classe! – Disse Markus gargalhando.

Cada um seguiu seu caminho.

terça-feira, 18 de agosto de 2015

Nobre dos nobres.

- Não há uma só alma naquele lugar irmão, lá tu ficarás à mercê do nada, tens certeza que queres ir? Terás que atravessar um deserto árido e impiedoso que lhe fará transpirar dos pés à cabeça e suplicar pela misericórdia de teus guias.

- Não há outra escolha, é o que eu quero e é o que preciso. Poderia ficar contigo e viver as frivolidades desta cidade, desfrutar dos prazeres grosseiros, rir de minha própria desgraça e fazer desta jornada um êxtase ilusório, mas sinto lhe dizer que diante de tal quadro só o que me resta é a recusa. Preciso caminhar, não sei a que destino, mas há uma inquietude que me move e que me enrijece os sentidos para seguir nesta estrada. O que me chama é como uma canção sublime e meus passos em sincronia me conduzem como em uma dança a céu aberto. Há tanta beleza neste lugar, e posso ver em cada coisa aquilo que transcende aos olhos do terreno, vejo e sinto a vida em sua eterna orquestra, radiante e magnificente, como em um espetáculo de perfeição. Ora meu caro, há momentos em que as passagens nos fazem esquecer o que é eterno e imutável, do que realmente dá corpo e sentido ao que chamamos de existência, momentos em que esquecemos de olhar além do nosso próprio além, não vemos que tudo está fluindo, mas estamos em um rio sereno de um grande vale que só a ave mais destemida pode sobrevoar. 

Que dia formidável, não crê? O tempo nunca esteve tão convidativo, é uma pena que não queira me acompanhar, não nos falaremos por um longo tempo, não anseio me comunicar, mas minha alma carrega as lembranças de tua afabilidade por onde quer que passe. Deixei algumas moedas sobre tua mesa, dívidas não restam mais, e o excedente é para que compre um presente para tua filhinha, a qual me cativa com sua doçura. Quem sabe um dia terei uma família como a que tens, não parece má ideia, mas presumo que não seja o dever e o privilégio que me competem agora, doravante ajusto a velha bússola que papai me dera. 

Sinto-me estimulado, apesar de tudo, mas diga-me se não é assim que renascemos a todo instante? Não é assim que encontramos a valiosa trilha a qual todos deverão passar? Penso eu que nenhum mal exista, não o julgarei mal uma vez desviado do caminho do bem, mas que doloroso seria estender os dias de um homem longe do caminho dourado da benevolência. Não sei se aguentaria por muito tempo, nem preciso aguentar por muito tempo, o caminho afável sempre brilha e se avizinha a nós, não importa onde estejamos, não é como uma centelha passageira e descompromissada, lembra-me a luz do Sol, como se fosse eterna, constante, presente e perseverante. 

Não vejo a hora meu amigo, de subir aquela montanha, avistar o horizonte da liberdade e saborear os frutos ali crescidos. Para ser bem honesto, pouco me fascina a vida de nosso monarca, ora, se quando estou em júbilo com a vida me sinto como o mais nobre dos nobres, sendo eu meu próprio castelo, sendo eu meus próprios súditos, sendo comigo mesmo o meu maior dever e compromisso. Seguirei meu caro irmão, no mais deixarei contigo minha mais pura gratidão, e sei que não tardará para que nos encontremos novamente.




domingo, 9 de agosto de 2015

Escolha a Liberdade.

A sensação de exploração sempre existirá enquanto os recursos forem escassos, a luta pela sobrevivência fez, faz, e sempre fará parte de nossa existência. Você pode escolher entre se isolar em um ponto distante na natureza, produzir seu próprio alimento e viver da maneira que melhor o(a) satisfaz, ou você pode viver em sociedade, oferecer seu trabalho e buscar as melhores vantagens e oportunidades de acordo com suas ambições pessoais.

O capitalismo não impõe uma forma pré-determinada de como as pessoas devem viver, este é um sistema de liberdade, de livre-escolha. Você pode escolher ter uma vida simples, um salário modesto, vestir uma calça furada e andar por aí ajudando os pobres e necessitados, ou você pode empreender, investir em algum negócio, acumular bens materiais e ter uma vida de rei (se for bem sucedido).

Elites sempre existirão, mas qual seria a melhor opção? Uma elite de políticos poderosos que nada produzem à sociedade e utilizam a força para sua manutenção no poder, ou uma elite econômica que só pode ser sustentada através da melhor oferta de bens e serviços possíveis aos demais? O mercado é o sistema democrático mais implacável que existe, nele milhões, bilhões, trilhões de votos estão sendo computados diariamente, nele quem tem poder é o indivíduo, e a paz é uma dos preceitos indispensáveis para sua sobrevivência.

Em uma economia de mercado ninguém é forçado a nada, não existe uma maioria impondo o que é melhor para todos, o que existe são indivíduos buscando seus objetivos, cada um com sua personalidade e distinção, ao mesmo tempo que empoderam aqueles outros indivíduos que merecem reconhecimento pelos bens e/ou serviços que ofertam, sejam eles materiais, intelectuais, artísticos etc.

Quanto mais poder (dinheiro) é direcionado à classe política, mais fraco se torna o mercado, quanto mais fraco o mercado e a economia, maior a sensação de exploração. Muito se trabalha, pouco se poupa, parece que nunca conseguimos sair da corrida dos ratos. Mas quando o mercado tem seu espaço e os indivíduos podem prosperar, tudo se transforma, mais riqueza e oportunidades são geradas, as pessoas conquistam mais autonomia e a vida ganha uma nova dinâmica de otimismo, motivação e cooperação.

Optar pelo mercado ao invés do Estado significa optar por uma libertação gradual, longe das receitas mágicas e das ideologias utópicas, é focar em si mesmo e oferecer o melhor que se pode fazer, é gerar valor e encontrar oportunidades onde há demanda, é construir a própria segurança e depois olhar para trás e reconhecer que você é muito maior e mais capaz do que imagina. No final das contas, não existe almoço grátis, mas é melhor lutar pelo seu almoço na liberdade do que ter seu almoço dependendo daqueles que acreditam saber o que você precisa para ser feliz.

domingo, 2 de agosto de 2015

Após o Vale dos Lobos.

Caminhava o bravo guerreiro perdido e atormentado pelo Vale dos Lobos, após a batalha os poucos que sobraram se dispersaram, e ele estava entre aqueles que saíram feridos e aterrorizados pelo jorrar do sangue que ali se deu. Frente aos seus olhos nada além da trilha inóspita e saudosa dos últimos que ali passaram, tampava o olho ferido com um pedaço de pano encontrado em meio ao caos, apenas restando o outro para tentar enxergar o caminho neblinado pela frustrante derrota. Caminhou sem rumo algum, pois que pouco sabia sobre o lugar em que estava.

O frio e a solidão o acompanhavam assim como os morcegos acompanham a escuridão, pouco se entendia, muito se pensava, naquele momento o tempo já não fazia mais sentido, os segundos não existiam, os minutos constituíam uma escala de um passado distante. Não imaginava que sentiria tanta falta daquelas que o esperavam em casa, no pequeno condado, provavelmente desfrutando do indispensável calor da lareira que muito trabalhava naqueles tempos que antecediam o inverno.

Perguntas ficavam no ar, os amigos que ficaram para trás, a certeza da vitória massacrada pela espada inimiga, tudo o fazia lembrar daquele dia de terror em que pela primeira vez sentiu o pesado revés que pode surpreender o mais hábil dos combatentes e o mais perspicaz dos generais. Continuou sua jornada já confuso entre a loucura e a realidade, cambaleava sentindo na boca a lembrança do inesgotável prazer de uma pequena gota d’água nos momentos de agonia e restrição. Não desistia, e dentro da desordem de seus sentimentos se sustentava uma fé que parecia ser inabalável.

Ao cruzar imensurável trajeto avista um pequeno vilarejo formado por poucos casebres, alivia os sentidos e caminha com o que sobrou de energia daquele coração que ainda pulsava para que ele pudesse sentir cada pequena sensação promovida pelo sofrimento. Adentra o vilarejo e se dirige sem firmeza à pequena fonte central, mergulhando a cabeça na fria água de outono e fornecendo ao corpo aquilo que tanto ansiava. – Água! – Exclamou por dentro. Nunca esta fonte de vida cumpriu tanto o seu papel como naquele momento de martírio.


Observado com curiosidade pelos aldeões, foi abordado e acolhido por uma família, longe de toda nobreza, mas bem próxima do mais puro amparo cristão. Foi recebido, alimentado, teve seus ferimentos bem cuidados, e pôde enfim descansar depois da brava odisseia. Adormeceu ainda fora de si, e foi surpreendido por cenas macabras daquele dia que dificilmente deixará sua sofrida memória, mas conseguiu descansar, e aos poucos revitalizara o corpo cansado. Dali por diante, sua jornada não mais seria pelo Vale dos Lobos, mas sim pelo vale interior que o atormentava a alma e o roubava a expectativa pelo dia posterior.

domingo, 17 de maio de 2015

O Movimento Espírita e as drogas.

Vale a pena?
Semana passada fui à Federação Espírita Cearense representando meu centro para uma reunião geral sobre o cenário do movimento no estado, notícias e discussões de cunho administrativo. Enquanto estava sentado no auditório observei aqueles cartazes com as campanhas empreendidas pelo movimento, como por exemplo a campanha contra o aborto, a qual concordo, pois o aborto se trata de uma agressão de um indivíduo vivo contra um outro, também vivo, que deve ter seus direitos individuais legitimados e protegidos (bebê). Além disso havia outros cartazes que não me recordo no momento, a não ser um que não tem como esquecer, pois este mexe profundamente com minha noção de liberdade e moralidade.

A campanha que mais me chama atenção com seus cartazes Brasil a fora são aquelas contra a liberação das drogas, mais precisamente da maconha. Nota-se um forte engajamento do movimento espírita brasileiro em se posicionar não só contra as drogas, mas a favor da proibição legal via estado, ou seja, via força policial e violência. Digo isso pois existe uma tremenda diferença em se posicionar contra as drogas e se posicionar contra a liberação das drogas. Explico; no primeiro caso nós como indivíduos ou grupo de indivíduos nos posicionamos contra a utilização de determinado produto, julgamos que esta substância é um mal, e assim nos abstemos de seu consumo e tentamos persuadir outras pessoas a fazerem o mesmo de acordo com a abertura das mesmas. Por exemplo, se eu acredito que refrigerante causa dependência e uma série de doenças como obesidade e diabetes, eu deixo de comprar aquele produto e tento persuadir aqueles que querem se convencer de que meu posicionamento é correto e seguir o mesmo caminho. Esta situação ao meu ver seria a atitude mais nobre, pois estou me utilizando da liberdade para me posicionar contra determinado produto sem que esteja forçando ninguém a mudar determinado comportamento.

Agora vamos para o segundo caso, ser contra a liberação das drogas, parece bom não é? Isso nos soa como algo moral e de benevolência incontestável para com nossos irmãos(ãs) que tendem a se entregar ao vício, mas digo-lhes a verdade, o espírita que defende tal coisa está simplesmente tomando as vestes de um tirano e simplesmente aniquilando toda moral por trás do conceito de livre-arbítrio tanto citado no Livro dos Espíritos e todas as obras que permeam esta doutrina. Afinal, qual o papel dos espíritas? A defesa da caridade, da liberdade, do voluntarismo, ou o anseio pelo ato de legislar em ordem de definir quais os padrões que devem ser seguidos pela sociedade? Ora amigos(as), para que uma lei como essa possa ser colocada em prática, ou seja, para que o livre-arbítrio seja suprimido, quais são os meios utilizados pelo estado? O amor? A caridade? A persuasão? De maneira alguma! Ao nos posicionarmos a favor da repressão estatal, estamos invariavelmente nos colocando a favor da violência, da coerção, estamos ameaçando a liberdade e despertando nos homens mais perversos a oportunidade de ascenderem economicamente através de um mercado paralelo que nunca conseguiu ser controlado pela máquina estatal.

Cito aqui a pergunta 843 do Livro dos Espíritos para reflexão:

Tem o homem o livre-arbítrio de seus atos?

“Pois que tem a liberdade de pensar, tem igualmente a
de obrar. Sem o livre-arbítrio, o homem seria máquina.”

Pergunto-vos, eis aí algum empecilho contra a liberdade? Cita os espíritos alguma exceção? Indubitavelmente a liberdade carrega a responsabilidade, e o indivíduo não pode se utilizar de sua liberdade para prejudicar um outro indivíduo, pois aí já se consolida o ato de agressão. Mas pensemos, não teria o indíviduo o direito de se autodestruir? Não permite Deus que o homem acabe com a própria vida e posteriormente pague o preço de seus atos? Ora, se Deus nos colocou neste planeta sob os desígnios do livre-arbítrio, quem somos nós para violentar aquele indivíduo que se entrega ao vício? E faço questão de usar a palavra "violentar", pois não adianta sermos bondosos e fraternos em nossas vidas particulares e ao mesmo tempo imbuir o estado para que o mesmo opere o trabalho sujo de disciplinador totalitário. O estado deve ter o dever de proteger a liberdade que possibilita a vida, de prezar pela propriedade privada que oferece estabilidade às famílias, de defender esta estabilidade da perversidade de povos estrangeiros que ainda vivem da violência, mas nunca, digo nunca, meter-se à vida do indivíduo, mesmo que a intenção pareça nobre, pois é indo contra as liberdades individuais que começamos a construir a tirania daqueles embriagados pelo poder, e foi por meio de boas intenções coletivistas que nações inteiras se afogaram na mais penosa desgraça.

População do Colorado aprende a lidar com o produto.
Mais conscientização, melhor uso, melhores resultados sociais,
menos presos, mais arrecadação.
Voltando à reunião do início do texto, as atividades passaram e chegamos a um ponto que também me tomou a atenção. A condutora da reunião, posicionada sobre o púlpito do auditório, citou a campanha do Movimento Espírita contra as propagandas de bebidas alcoólicas na televisão, atualizou os presentes sobre o andamento do projeto e reforçou a campanha. Fiquei estarrecido. Veja só a que ponto chegamos, além de legitimarmos a carnificina da guerra às drogas, ainda temos a petulância de enviar projetos de leis a Brasília com o intuito de reprimir a liberdade de entes privados em nosso país, pautando-se na ideia de que se somos contra algo, devemos usar o estado para reprimir tal coisa. Sem dúvida um ato de arrogância e autoritarismo coletivista. Um dos argumentos utilizados para defesa de tal ato é de que o mesmo foi feito com os cigarros e por causa disso o consumo deste produto caiu drasticamente, que falácia! O cigarro entrou em decadência por ele mesmo, foi a partir dos níveis alarmantes de enfermidades causadas por suas substâncias que as novas gerações recusaram este produto, nada mais que um efeito de mercado combinado à educação das famílias, escolas e meios de comunicação tocados pela livre-iniciativa. Sempre que o mercado ajusta um comportamento através das conclusões autônomas dos indivíduos, o estado se aproveita para fazer suas leis restritivas e trazer o mérito para a consolidação de seu próprio poder, dando a impressão de que sua onipresença foi decisiva para mais uma conquista social em prol da saúde e da qualidade de vida. Amigos(as), abramos os olhos sobre aqueles que vivem do poder e pelo poder!

Apesar de estar convencido de que a liberação das drogas traria muito mais benefícios do que malefícios, não entrarei neste campo, pois meu objetivo neste texto é abordar o assunto sob o ponto de vista moral. O papel do espírita e do cristão em geral não é se utilizar da força para fazer deste mundo um lugar melhor, pois da coerção mínima para o totalitarismo é apenas um pequeno passo! Deveriamos ser contra os excessos, ser contra o vício que pode colocar nossos irmãos(ãs) nas estradas turtuosas da dependência química e do sofrimento, oferecer voluntariamente o amparo e o amor ao próximo, a educação e a instrução, procurar entender aqueles que se entregam ao desânimo e se abatem com os (necessários) desgostos da vida, mas nunca, nunca usar da violência e exterminar toda a moral que permea a maior alavanca do progresso humano, que é o livre-arbítrio. Se defendemos a fé racional, também precisamos medir quais são os resultados reais de nossas "boas intenções", pois que poderemos estar caindo na mesma armadilha daqueles condenados pelo monopólio da bem-aventurança. Eis aqui um espírita contra as drogas, mas muito mais contra a proibição sanguinária das mesmas.  



No vídeo abaixo o prêmio nobel de Economia Milton Friedman exemplifica melhor o que deveria ser considerado por aqueles que defendem a criminalização das drogas:



Por que liberdade importa?



quinta-feira, 7 de maio de 2015

O dia em que falei sobre Bitcoin na sala de aula.


Hoje tive aula de Direito Empresarial, o assunto: títulos de crédito. A professora apresentava o tema com muita desenvoltura e conseguia transformar um assunto que tende a ser meio chato em uma aula agradável. Conteúdo pra cá, conteúdo pra lá e tudo correndo como previsto. Mas antes de continuar, introduzirei um colega que chamarei de Zé Comuna.

Zé Comuna é um senhor na faixa de uns 60 anos, tem um bigode e está bem acima do peso. Zé Comuna senta no fundão da sala, anotando o conteúdo em uma agenda e costuma fazer intervenções do tipo: "Nós precisamos adotar a teoria de Marx!", "Isso gera muita sonegação e corrupção!", "Isso é uma afronta contra os trabalhadores!". Zé Comuna propôs, na última aula, que a professora falasse sobre as terceirizações, provavelmente ele estava pronto para discursar a respeito do tema de forma a "iluminar" a mente ainda imatura daqueles jovens de vinte e poucos anos que estavam na sala.

Pois bem, voltamos à nossa aula sobre títulos de crédito. Tudo correu bem e o conteúdo estava encerrado, apesar do meu desconforto em ouvir tanta legislação e burocracia sobre algo que na minha mente deveria ser bem mais simples. A professora se dirigiu à sua mesa e disse:

- Bom pessoal, agora como sugerido pelo Zé Comuna, eu gostaria de conversar com vocês sobre as terceirizações...

Neste momento, ao perceber que os alunos estavam mais interessados em irem para casa ao invés de discutir um assunto chato que gera polêmica entre socialistas radicais (PT) e socialistas café com leite (PSDB), interrompi a fala da professora e disse algo que já estava planejando durante aquela aula:

- Professora, antes de falarmos sobre as terceirizações, será que eu poderia falar algo sobre um assunto que tenho muito interesse e eu acho que tem a ver com o conteúdo da aula?

A professora, que adora a participação de seus alunos, escorou-se na mesa, sorriu e disse:

- Claro, pode dizer!

A partir deste momento iniciei minha fala que soou mais como um discurso impulsionado pelo fascínio que o assunto me proporciona, comecei a falar sobre: BITCOIN. Comecei abordando os antecedentes da explosão Bitcoin, as tentativas fracassadas de outras moedas digitais e grande parte do que precisava ser dito para que os presentes pudessem se preparar para as fascinantes abordagens que eu falaria adiante e que cercam a possibilidade de o mundo ter uma (na verdade mais de uma) moeda digital descentralizada.

A medida em que eu falava, comecei a me surpreender comigo mesmo, pois nem eu sabia que o pouco que sei sobre Bitcoin seria suficiente para operar tal discurso tão convincente. Falei por aproximadamente 3 minutos até que vieram as primeiras interrupções, meus colegas, assim como a professora, estavam tomados por toda aquela ideia que permeia o Bitcoin, seus olhos brilhavam e começaram a vir perguntas calorosas sobre detalhes que não cruzavam os limites de meu moderado conhecimento sobre o assunto.

De repente, uma aula normal se transformou em um grande comércio de informações que estimulava todos os presentes, dúvidas surgiam e reflexões sobre um mundo financeiro descentralizado causavam euforia. Alguns pediam para que eu soletrasse a palavra para que pudessem anotar em seus cadernos e pesquisar em casa ao chegarem. A professora, com anos ensinando sobre o mesmo sistema chato e ineficiente que favorece políticos e elites corporativistas, não tirava o sorriso do rosto.


Em meio a este quadro de euforia, reparei em nosso amigo Zé Comuna um grande desconforto, além de todos terem esquecido de seu precioso diálogo sobre as terceirizações, estavam falando sobre uma lógica que não conseguia ser processada por sua mente marxista do século passado. E ao mesmo tempo em que estava desnorteado com aquele assunto sobre moeda digital, também estava aterrorizado pelo fato do Estado estar possivelmente ameaçado por um sistema monetário que simplesmente destrói toda sua estrutura como grande diretor e planificador social. Cheguei a dizer:

- Professora, imagina que você está no meio da Sibéria, numa pequena cidade no interior da Rússia, eu te mando um whatsapp dizendo: "E...., preciso que você me faça aquele pagamento". De repente você abre sua carteira Bitcoin no próprio celular e processa o pagamento em milésimos de segundo sem que nenhum banco ou governo tenha intermediado sua transação ou, mais importante, TRIBUTADO uma interação privada entre eu e você.

Zé Comuna, estava ficando roxo, levantou o dedo e disse como quem desqualifica o assunto:

- Eu acho que ouvi falar disso na Globonews outro dia, não sei não... (desconfiança recalcadade de quem está lidando com algo completamente desconhecido).

Ninguém se importou com sua fala vazia e as atenções retornaram ao assunto principal. Continuamos celebrando um diálogo sobre o tema por alguns minutos. O tempo da aula se aproximava do fim e Zé Comuna percebeu que o assunto das terceirizações havia sido completamente esquecido. Ele não aguentou aquela situação, levantou-se e caminhou até a mesa da professora visivelmente desnorteado, olhou para a docente, apontou em minha direção e disse com aquela autoridade de esquerda bem conhecida:

- Isso aí é que nem o Esperanto!!! Isso aí não dá certo não!!!

E saiu caminhando em direção à porta para deixar a sala de aula, mas antes que ele saísse eu disse:

- Eu não quero te magoar Zé Comuna, mas o marxismo já era...

Nosso amigo esquerdopácio ouviu minhas palavras e saiu pela porta resmugando algumas esquerdopatias que ninguém conseguiu ouvir. A turma se divertiu com a cena, fizemos alguns comentários e a aula se encerrou. Provavelmente agora cerca de 20 pessoas que nunca ouviram falar sobre Bitcoin vão pesquisar sobre isso e se informar sobre o assunto. E eu dormirei feliz sabendo que um esquerdista que há alguns dias me desafiou a debater sobre marxismo (é como debater com alguém que diz que o Sol gira em torno da Terra) deixou a sala de aula apontando o dedo para mim e comparando Bitcoin com Esperanto. It's happening!


sábado, 14 de março de 2015

Do Socialismo ao Liberalismo.

James Watt
Inventou o motor a vapor atravéns de seus anseios
individuais e constribuiu mais para a humanidade
do que qualquer socialista ou burocrata.
Estive pensando e já há algum tempo gostaria de escrever sobre minha drástica mudança de viés ideológico na área da política e da economia. Muito me faz refletir o fato de hoje defender algo que há cerca de dois anos eu iria considerar abominável e retrógrado. Faz-se necessária uma análise cronológica de como os eventos evoluíram a este ponto. Hoje me considero um liberal (embora simpatize com o conservadorismo em alguns aspectos), defensor do estado mínimo, em favor do livre mercado, da ênfase no indivíduo e no voluntarismo, partindo do pressuposto de que quanto menos paternalismo de uma classe superior (estado), mais responsáveis são os indivíduos e os grupos sociais para que sejam protagonistas de suas próprias ascensões, conquistando um sentimento de independência que tende a se solidificar de acordo com o aumento da liberdade. A esperança do progresso com base no apadrinhamento do estado torna a vida humana uma experiência de responsabilidades vagas e confusas, além de uma coletivização que pouco tem a ver com solidariedade ou fraternidade, e sim com dominação e imposição de determinadas ideias sobre seres-humanos que em partes foram desqualificados de individualidade.

Pois bem, meu interesse por política começou a se manifestar quando adolescente, porém meu conhecimento era quase nulo, hoje considero que sei pouco, mas sei bem mais que naquela época. Meio que por um comportamento natural eu gostava da ideia do capitalismo, aquilo parecia fascinante, o progresso operado pela civilização nos últimos séculos soava para mim como uma experiência vitoriosa e irrefutável, hoje considero que esse meu instinto da adolescência estava correto, e que o liberalismo já devia fazer parte de meu passado (para quem acredita no espiritismo e na reencarnação). Porém essa minha atração pelo capitalismo, mesmo não tendo sido tão beneficiado por ele desde um determinado período da minha vida, não se alongava a uma verdadeira posição política, era apenas uma admiração do mundo assim como ele é, acreditando que tudo estava em progresso e que a família da favela, mais cedo ou mais tarde, seria agraciada pela ordem natural das coisas, conhecendo assim o conforto e a fartura assim que sua vez chegasse e seu mérito laboral fosse recompensado.

O tempo passou e entrei na Universidade, primeiramente em Filosofia, apenas por um semestre, e por seguinte em Jornalismo, onde permaneci por dois semestres. Este período de um ano e meio eu considero como o meu início no pensamento e posicionamento político mais atuante, porém confesso que este cenário era bem vago e pouco direcionado com precisão, mas todo começo é assim. De certa forma ainda simpatizava com o capitalismo, porém notava o início do desenvolvimento de uma mente de esquerda, tempo esse que tinha simpatia pelo PSOL, por exemplo. Vale ressaltar que este ambiente acadêmico que frequentei era um antro da esquerda, inclusive até hoje ainda tento entender a força massacrante que este viés ideológico possui no campo da Comunicação Social. Minha professora de Sociologia assumia em sala de aula que era Marxista, estudávamos o Manifesto Comunista como uma bíblia, e lembro até que ela exibiu aquele filme sobre a revolução industrial que retrata a luta de classes e a exploração ao proletariado, e isso numa Universidade privada que pertence a um grupo industrial, melhor nem pensar no que acontece nas salas de aula das “públicas”.

Mas por incrível que pareça, essa convivência não me colocou em sintonia com o esquerdista way of life. Eu apenas acreditava em quase tudo que os esquerdistas diziam, mas ainda tinha meu grande respeito pelo mercado e à livre iniciativa, isso me colocaria, talvez, na posição de um Social Democrata. Neste momento eu acredito que entrei na sintonia do perfil “geral” da juventude da classe média brasileira, ou seja, Sociais Democratas que votam em partidos Socialistas porque simplesmente a esquerda conseguiu transformar o PSDB num símbolo da “direita opressora”. O que percebo é que esses amigos que votam no PT, PSOL etc, geralmente anseiam tudo que o PSDB defende, um sistema bem parecido com o Europeu, mas como disse, o PSDB virou o lobo mal, isso confirma a tese da força e do poder que esses professores e comunicadores da esquerda possuem quando escolhem um inimigo.

Após este um ano e meio fui para a Escócia trabalhar como voluntário em uma comunidade para pessoas especiais. Foi neste ambiente que eu dividia meu tempo entre praticar a caridade e amadurecer meu posicionamento político. Durante esta vida em comunidade assimilei tudo que a esquerda “do bem” sustenta. Elevei aquele estilo de vida a um estado utópico, enxergando ali o máximo da virtude e da benevolência, comecei a criticar o capitalismo e procurar por suas falhas, demonizei o materialismo e investiguei o que deveria ser feito para tornar o mundo melhor. Assimilei todos os mitos econômicos que a esquerda adora pregar e comecei a abraçar teorias utópicas de um mundo rico, lindo e sem sofrimento. Foi um processo de esquerdização avassalador, o comunismo e o socialismo eram fontes de esperança e a solução para a maior parte dos problemas sociais que eu observava. Você já viu esquerdista que não tenha uma resposta para tudo? É assim que funciona, os caras não dão o braço a torcer, acham que a vida e a existência são uma receita de bolo e que o capitalismo é a fonte de toda miséria, pura falácia! Hoje noto o tamanho de minha ingenuidade ao perceber que a comunidade exemplar onde trabalhei era sustentada em grande parte pelo setor privado, fundações, doações etc, e aquele lugar só consegue se manter com os recursos conquistados pelo capitalismo, ao contrário não passaria de uma comunidade capenga e totalmente insegura economicamente.

O que me chama atenção desse tempo passado é que mesmo com toda essa vivência ideológica, aquela imagem da foice e do martelo sempre foi um motivo de certa repulsa para meus olhos, por mais que eu acreditasse em grande parte da teoria, os símbolos da ideologia me causavam um pouco de desconfiança e um sentimento de autoritarismo, e não de libertação. Isso eu considero mais uma reação inconsciente das minhas verdadeiras e mais íntimas convicções ideológicas que mais tarde iriam, felizmente, despertar. Saliento que esse estilo de vida me fez pisar no freio profissionalmente, ajustar-me ao sistema capitalista explorador não era tão importante, assim perdi tempo e hoje corro atrás para me recuperar, mas não me arrependo, nada é por acaso e experiências são preciosas.

Barão de Mauá
Um patriota traído por querer transformar
seu país em uma potência.
Lembro-me que no auge de minha esquerdice eu aparentava ser uma pessoa super humana e benevolente, mas por dentro guardava o rancor autoritário da ideologia, assim como a prepotência de querer que os outros acreditassem no que eu acredito (muito comum entre os camaradas, principalmente os que se acham mais inteligentes). Julgava-me acima dos manipulados do sistema de consumo, aqueles pobres seres infelizes que não sabiam achar a felicidade nas coisas simples da vida. Tornei-me a típica figura esquerdista, um cara do bem que transformou seu desejo de mudar o mundo em um autoritarismo branco. Hoje eu agradeço muito por ter vivido isso, pois agora minhas convicções do outro lado são muito mais fortes. Esquerdista com papinho humanitário e virtuoso não me engana mais, a vida é um grande trade-off e toda intervenção social terá seu lado negativo, um líder deve transformar seu sentimento humanitário em uma verdadeira ação pragmática e meticulosa no momento de planejar e tomar decisões, caso contrário cairá na ilusão do curto prazo e as consequências serão piores.

Agora as coisas começam a ficar legais. Depois desta experiência no exterior, decidi estudar Comércio Exterior, imagina só, um esquerdista estudando business. Mas tudo bem, estudar Comex e Economia não me rebaixaria ao nível de capitalistas materialistas, eu poderia trabalhar para o estado, fazer algo humanitário, trabalhar em ONGs etc. Logo no primeiro semestre, ao estudar Introdução à Economia, entrei em estado de fascinação, as aulas eram um banho de lógica que poucos esquerdistas têm acesso (a maioria nunca abriu um livro de Economia, ou melhor, a maioria nem leu o Manifesto Comunista, só vão na onda), comecei a me divertir e me encontrei naquele campo do conhecimento. Economia é o máximo (apesar das minhas limitações matemáticas devido ao trauma dos conteúdos que o governo nos manda estudar no ensino médio). As semanas passavam e eu gostava daquilo cada vez mais. Porém eu ainda era esquerdista e queria usar este conhecimento para combater a pobreza e fazer algo bom pelo mundo que não convivesse com esse egoísmo capitalista, oh yeah, let’s fight the 1%!

Eis que nos aproximamos do grande momento. Certo dia vi um post ou comentário de um colega da faculdade em algum lugar das redes sociais, ele, de uma maneira que nunca vi antes, defendia a “privatização de tudo”! Heim?! Privatização de tudo? Você só pode tá brincando com a minha cara. Claro que eu nunca iria concordar com aquele cara, imagina só, num mundo tão desigual e injusto você querer viver só do privado, que coisa maluca. Mas aquilo ficou na minha cabeça, e martelava e martelava, até que pensei: “Bem, eu não concordo de jeito nenhum, mas eu deveria ouvir o outro lado, não? Se um cara instruído defende uma hipótese dessas, deve haver algo que faça sentido por trás, ou será que esses liberais são seres do mal que não querem um mundo melhor? Não faria sentido.” Eis que o esquerdopata resolveu ser humilde e conhecer outras ideias.

Comecei a procurar materiais sobre privatizações e economia liberal, até que cruzei com um artigo do Instituto Ludwig von Mises Brasil, eu não lembro que artigo vi, mas era o tipo de coisa que qualquer esquerdista cuspiria em cima e nem acreditaria que alguém defenderia algo daquele tipo. Mas eu comecei a ler, e fui lendo, e quanto mais eu lia, mais queria novos artigos, aquilo foi sendo assimilado por mim de uma maneira impressionante, aquele absurdo estava fazendo sentido na minha cabeça, pouco a pouco minha mente utópica foi puxada para a realidade e me fez entender o contexto social de uma forma completamente diferente. O capitalismo não era esse demônio, era algo natural e benéfico, a lógica era perfeita e ao mesmo tempo não garantia sucesso absoluto. Era como a vida, cheia de riscos e aventuras, porém muito estimulante e convidativa a um constante melhoramento individual e cooperativo. Fiz questão de derrubar vários mitos, como a devastação da natureza, o acúmulo de riqueza, a existência da desigualdade, e a melhor parte, as reais razões da pobreza que assola nosso país, a África e tantos outros. Por momentos fiquei espantado ao perceber como a esquerdice me socou em outro mundo.

Desde então não parei, li alguns livros e concluí que eu estava no mundo da lua defendendo a utopia socialista que sempre acabava em tragédia. Porém não virei seguidor de Mises, sou a favor de um estado e não gosto do radicalismo, porém acredito em algo que o Brasil nunca experimentou, que é o liberalismo econômico. É claro que tento sempre melhorar meu ponto de vista, mas uma coisa é certa, vejo muito mais sentido no que acredito hoje do que o que defendi anteriormente. Mais do que mero conhecimento político-econômico, o liberalismo me deu a maior lição de moral da minha vida, e que sou muito grato, que é: você nunca está certo, somos todos diferentes, a vida é complicada, o que você acredita ser bom talvez não seja para outra pessoa, respeite a liberdade alheia, respeite o consumista e o minimalista, cada um vive o que quer e o que busca, você não é ninguém para julgar alguém, você nunca terá a fórmula da vida perfeita. Parece básico não é? Mas quando você está tomado por uma ideologia ou doutrina, lições básicas do bem viver podem se afastar, dando espaço para imposições autoritárias do que é certo e o que é "melhor" para todos.

Bem, hoje aceito a vida como ela é, foco em mim e ajudo os outros sempre que possível, sinto-me livre de uma ideologia que nos escraviza silenciosamente. Poderia ficar aqui escrevendo muito mais sobre esse assunto, mas chega por hoje. Fecho com um dos meus vídeos favoritos sobre o assunto aqui abordado, coisa curta:



quinta-feira, 5 de março de 2015

Voltarei.


Sabe aquela mala
Que com memórias deixei?
Guarde-a
Pois voltarei

Sabe aquele dia
Que sem temer acordei?
Nunca se esqueça
Pois voltarei

Sabe aqueles sonhos
De um reino e um rei
Relembre-os também
Pois logo eu voltarei

Se buscava um tesouro
E minha rota mudou
Descobri o velho plano
Que na gaveta ficou

Água é a vida
Água é o homem
No rio da jornada
Não há um dia sem fome

A água que corre
Não fica parada
Se houver impedimento
Será então ajuntada

E se o tempo passar
Mais forte será
Quando as comportas abrirem
Com poder passará

No mundo de Deus
Não há tempo perdido
A cada segundo 
O passado é vencido

Mas no mundo dos homens
A paciência é amiga
Pois logo lhe dirá
A razão desta vida

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

O Rochedo e o Marinheiro.


A vida de um marinheiro
É cheia de incertezas
Repleta de coragem
E muitas surpresas

Não se pode parar
Nem para pensar
O marinheiro que para
Não poderia estar no mar

O marinheiro não tem tempo
Nem pra chorar e nem pra sorrir
Só tem um descanso
Até o novo partir

Carregando seus dias
De lutas e de glórias
Cicatrizando as feridas
Daquelas duras memórias

A sua alegria
É muito esperada
Não é duradoura
Mas é acumulada

Quanto tempo navegando
Cansado há de ficar
Mas tanto ama essas águas
Que não há de amansar

Marinheiro escutai-me
Pois tu sozinho não está
E aquele que algo busca
Algo encontrará

Quando houver um rochedo
E desviar não for possível
Não perca tua calma
Pois tu és invencível

Salve o que puder
E tenha paciência
Tua alma é pura
Chegará tua clemência

Deite na rocha
E não reclame
A noite passará
Será o fim do certame

Teu barco abatido
Ainda há de navegar
Abra suas velas
E não exite em acreditar

Os bons rumos meu caro
Certamente estão aí
Basta persistência
Na bela arte de descobrir

Mas antes de mais nada
Algo tenho a lhe alertar
O bom marinheiro
Por bons ventos sabe esperar

Agarre o esfregão
E guarde tua espada
O convés está sujo
Merecendo uma lavada

E quando tudo estiver limpo
Sente e aguarde
Os ventos do Oeste
Não virão tão tarde

Esteja em alerta
Prepare a tripulação
Pois no momento certo
Virá a nova missão

E aquela sujeira
Que tiraste do convés
Ficará no rochedo
E não haverá revés

Vejo-lhe em terra firme
Quando da glória chegar
Compartilhando teu ouro
Com um brilho no olhar

Sonhei contigo
E ao rochedo tu sorrias
Pois naquela noite
Começara o teu dia