domingo, 17 de maio de 2015

O Movimento Espírita e as drogas.

Vale a pena?
Semana passada fui à Federação Espírita Cearense representando meu centro para uma reunião geral sobre o cenário do movimento no estado, notícias e discussões de cunho administrativo. Enquanto estava sentado no auditório observei aqueles cartazes com as campanhas empreendidas pelo movimento, como por exemplo a campanha contra o aborto, a qual concordo, pois o aborto se trata de uma agressão de um indivíduo vivo contra um outro, também vivo, que deve ter seus direitos individuais legitimados e protegidos (bebê). Além disso havia outros cartazes que não me recordo no momento, a não ser um que não tem como esquecer, pois este mexe profundamente com minha noção de liberdade e moralidade.

A campanha que mais me chama atenção com seus cartazes Brasil a fora são aquelas contra a liberação das drogas, mais precisamente da maconha. Nota-se um forte engajamento do movimento espírita brasileiro em se posicionar não só contra as drogas, mas a favor da proibição legal via estado, ou seja, via força policial e violência. Digo isso pois existe uma tremenda diferença em se posicionar contra as drogas e se posicionar contra a liberação das drogas. Explico; no primeiro caso nós como indivíduos ou grupo de indivíduos nos posicionamos contra a utilização de determinado produto, julgamos que esta substância é um mal, e assim nos abstemos de seu consumo e tentamos persuadir outras pessoas a fazerem o mesmo de acordo com a abertura das mesmas. Por exemplo, se eu acredito que refrigerante causa dependência e uma série de doenças como obesidade e diabetes, eu deixo de comprar aquele produto e tento persuadir aqueles que querem se convencer de que meu posicionamento é correto e seguir o mesmo caminho. Esta situação ao meu ver seria a atitude mais nobre, pois estou me utilizando da liberdade para me posicionar contra determinado produto sem que esteja forçando ninguém a mudar determinado comportamento.

Agora vamos para o segundo caso, ser contra a liberação das drogas, parece bom não é? Isso nos soa como algo moral e de benevolência incontestável para com nossos irmãos(ãs) que tendem a se entregar ao vício, mas digo-lhes a verdade, o espírita que defende tal coisa está simplesmente tomando as vestes de um tirano e simplesmente aniquilando toda moral por trás do conceito de livre-arbítrio tanto citado no Livro dos Espíritos e todas as obras que permeam esta doutrina. Afinal, qual o papel dos espíritas? A defesa da caridade, da liberdade, do voluntarismo, ou o anseio pelo ato de legislar em ordem de definir quais os padrões que devem ser seguidos pela sociedade? Ora amigos(as), para que uma lei como essa possa ser colocada em prática, ou seja, para que o livre-arbítrio seja suprimido, quais são os meios utilizados pelo estado? O amor? A caridade? A persuasão? De maneira alguma! Ao nos posicionarmos a favor da repressão estatal, estamos invariavelmente nos colocando a favor da violência, da coerção, estamos ameaçando a liberdade e despertando nos homens mais perversos a oportunidade de ascenderem economicamente através de um mercado paralelo que nunca conseguiu ser controlado pela máquina estatal.

Cito aqui a pergunta 843 do Livro dos Espíritos para reflexão:

Tem o homem o livre-arbítrio de seus atos?

“Pois que tem a liberdade de pensar, tem igualmente a
de obrar. Sem o livre-arbítrio, o homem seria máquina.”

Pergunto-vos, eis aí algum empecilho contra a liberdade? Cita os espíritos alguma exceção? Indubitavelmente a liberdade carrega a responsabilidade, e o indivíduo não pode se utilizar de sua liberdade para prejudicar um outro indivíduo, pois aí já se consolida o ato de agressão. Mas pensemos, não teria o indíviduo o direito de se autodestruir? Não permite Deus que o homem acabe com a própria vida e posteriormente pague o preço de seus atos? Ora, se Deus nos colocou neste planeta sob os desígnios do livre-arbítrio, quem somos nós para violentar aquele indivíduo que se entrega ao vício? E faço questão de usar a palavra "violentar", pois não adianta sermos bondosos e fraternos em nossas vidas particulares e ao mesmo tempo imbuir o estado para que o mesmo opere o trabalho sujo de disciplinador totalitário. O estado deve ter o dever de proteger a liberdade que possibilita a vida, de prezar pela propriedade privada que oferece estabilidade às famílias, de defender esta estabilidade da perversidade de povos estrangeiros que ainda vivem da violência, mas nunca, digo nunca, meter-se à vida do indivíduo, mesmo que a intenção pareça nobre, pois é indo contra as liberdades individuais que começamos a construir a tirania daqueles embriagados pelo poder, e foi por meio de boas intenções coletivistas que nações inteiras se afogaram na mais penosa desgraça.

População do Colorado aprende a lidar com o produto.
Mais conscientização, melhor uso, melhores resultados sociais,
menos presos, mais arrecadação.
Voltando à reunião do início do texto, as atividades passaram e chegamos a um ponto que também me tomou a atenção. A condutora da reunião, posicionada sobre o púlpito do auditório, citou a campanha do Movimento Espírita contra as propagandas de bebidas alcoólicas na televisão, atualizou os presentes sobre o andamento do projeto e reforçou a campanha. Fiquei estarrecido. Veja só a que ponto chegamos, além de legitimarmos a carnificina da guerra às drogas, ainda temos a petulância de enviar projetos de leis a Brasília com o intuito de reprimir a liberdade de entes privados em nosso país, pautando-se na ideia de que se somos contra algo, devemos usar o estado para reprimir tal coisa. Sem dúvida um ato de arrogância e autoritarismo coletivista. Um dos argumentos utilizados para defesa de tal ato é de que o mesmo foi feito com os cigarros e por causa disso o consumo deste produto caiu drasticamente, que falácia! O cigarro entrou em decadência por ele mesmo, foi a partir dos níveis alarmantes de enfermidades causadas por suas substâncias que as novas gerações recusaram este produto, nada mais que um efeito de mercado combinado à educação das famílias, escolas e meios de comunicação tocados pela livre-iniciativa. Sempre que o mercado ajusta um comportamento através das conclusões autônomas dos indivíduos, o estado se aproveita para fazer suas leis restritivas e trazer o mérito para a consolidação de seu próprio poder, dando a impressão de que sua onipresença foi decisiva para mais uma conquista social em prol da saúde e da qualidade de vida. Amigos(as), abramos os olhos sobre aqueles que vivem do poder e pelo poder!

Apesar de estar convencido de que a liberação das drogas traria muito mais benefícios do que malefícios, não entrarei neste campo, pois meu objetivo neste texto é abordar o assunto sob o ponto de vista moral. O papel do espírita e do cristão em geral não é se utilizar da força para fazer deste mundo um lugar melhor, pois da coerção mínima para o totalitarismo é apenas um pequeno passo! Deveriamos ser contra os excessos, ser contra o vício que pode colocar nossos irmãos(ãs) nas estradas turtuosas da dependência química e do sofrimento, oferecer voluntariamente o amparo e o amor ao próximo, a educação e a instrução, procurar entender aqueles que se entregam ao desânimo e se abatem com os (necessários) desgostos da vida, mas nunca, nunca usar da violência e exterminar toda a moral que permea a maior alavanca do progresso humano, que é o livre-arbítrio. Se defendemos a fé racional, também precisamos medir quais são os resultados reais de nossas "boas intenções", pois que poderemos estar caindo na mesma armadilha daqueles condenados pelo monopólio da bem-aventurança. Eis aqui um espírita contra as drogas, mas muito mais contra a proibição sanguinária das mesmas.  



No vídeo abaixo o prêmio nobel de Economia Milton Friedman exemplifica melhor o que deveria ser considerado por aqueles que defendem a criminalização das drogas:



Por que liberdade importa?



quinta-feira, 7 de maio de 2015

O dia em que falei sobre Bitcoin na sala de aula.


Hoje tive aula de Direito Empresarial, o assunto: títulos de crédito. A professora apresentava o tema com muita desenvoltura e conseguia transformar um assunto que tende a ser meio chato em uma aula agradável. Conteúdo pra cá, conteúdo pra lá e tudo correndo como previsto. Mas antes de continuar, introduzirei um colega que chamarei de Zé Comuna.

Zé Comuna é um senhor na faixa de uns 60 anos, tem um bigode e está bem acima do peso. Zé Comuna senta no fundão da sala, anotando o conteúdo em uma agenda e costuma fazer intervenções do tipo: "Nós precisamos adotar a teoria de Marx!", "Isso gera muita sonegação e corrupção!", "Isso é uma afronta contra os trabalhadores!". Zé Comuna propôs, na última aula, que a professora falasse sobre as terceirizações, provavelmente ele estava pronto para discursar a respeito do tema de forma a "iluminar" a mente ainda imatura daqueles jovens de vinte e poucos anos que estavam na sala.

Pois bem, voltamos à nossa aula sobre títulos de crédito. Tudo correu bem e o conteúdo estava encerrado, apesar do meu desconforto em ouvir tanta legislação e burocracia sobre algo que na minha mente deveria ser bem mais simples. A professora se dirigiu à sua mesa e disse:

- Bom pessoal, agora como sugerido pelo Zé Comuna, eu gostaria de conversar com vocês sobre as terceirizações...

Neste momento, ao perceber que os alunos estavam mais interessados em irem para casa ao invés de discutir um assunto chato que gera polêmica entre socialistas radicais (PT) e socialistas café com leite (PSDB), interrompi a fala da professora e disse algo que já estava planejando durante aquela aula:

- Professora, antes de falarmos sobre as terceirizações, será que eu poderia falar algo sobre um assunto que tenho muito interesse e eu acho que tem a ver com o conteúdo da aula?

A professora, que adora a participação de seus alunos, escorou-se na mesa, sorriu e disse:

- Claro, pode dizer!

A partir deste momento iniciei minha fala que soou mais como um discurso impulsionado pelo fascínio que o assunto me proporciona, comecei a falar sobre: BITCOIN. Comecei abordando os antecedentes da explosão Bitcoin, as tentativas fracassadas de outras moedas digitais e grande parte do que precisava ser dito para que os presentes pudessem se preparar para as fascinantes abordagens que eu falaria adiante e que cercam a possibilidade de o mundo ter uma (na verdade mais de uma) moeda digital descentralizada.

A medida em que eu falava, comecei a me surpreender comigo mesmo, pois nem eu sabia que o pouco que sei sobre Bitcoin seria suficiente para operar tal discurso tão convincente. Falei por aproximadamente 3 minutos até que vieram as primeiras interrupções, meus colegas, assim como a professora, estavam tomados por toda aquela ideia que permeia o Bitcoin, seus olhos brilhavam e começaram a vir perguntas calorosas sobre detalhes que não cruzavam os limites de meu moderado conhecimento sobre o assunto.

De repente, uma aula normal se transformou em um grande comércio de informações que estimulava todos os presentes, dúvidas surgiam e reflexões sobre um mundo financeiro descentralizado causavam euforia. Alguns pediam para que eu soletrasse a palavra para que pudessem anotar em seus cadernos e pesquisar em casa ao chegarem. A professora, com anos ensinando sobre o mesmo sistema chato e ineficiente que favorece políticos e elites corporativistas, não tirava o sorriso do rosto.


Em meio a este quadro de euforia, reparei em nosso amigo Zé Comuna um grande desconforto, além de todos terem esquecido de seu precioso diálogo sobre as terceirizações, estavam falando sobre uma lógica que não conseguia ser processada por sua mente marxista do século passado. E ao mesmo tempo em que estava desnorteado com aquele assunto sobre moeda digital, também estava aterrorizado pelo fato do Estado estar possivelmente ameaçado por um sistema monetário que simplesmente destrói toda sua estrutura como grande diretor e planificador social. Cheguei a dizer:

- Professora, imagina que você está no meio da Sibéria, numa pequena cidade no interior da Rússia, eu te mando um whatsapp dizendo: "E...., preciso que você me faça aquele pagamento". De repente você abre sua carteira Bitcoin no próprio celular e processa o pagamento em milésimos de segundo sem que nenhum banco ou governo tenha intermediado sua transação ou, mais importante, TRIBUTADO uma interação privada entre eu e você.

Zé Comuna, estava ficando roxo, levantou o dedo e disse como quem desqualifica o assunto:

- Eu acho que ouvi falar disso na Globonews outro dia, não sei não... (desconfiança recalcadade de quem está lidando com algo completamente desconhecido).

Ninguém se importou com sua fala vazia e as atenções retornaram ao assunto principal. Continuamos celebrando um diálogo sobre o tema por alguns minutos. O tempo da aula se aproximava do fim e Zé Comuna percebeu que o assunto das terceirizações havia sido completamente esquecido. Ele não aguentou aquela situação, levantou-se e caminhou até a mesa da professora visivelmente desnorteado, olhou para a docente, apontou em minha direção e disse com aquela autoridade de esquerda bem conhecida:

- Isso aí é que nem o Esperanto!!! Isso aí não dá certo não!!!

E saiu caminhando em direção à porta para deixar a sala de aula, mas antes que ele saísse eu disse:

- Eu não quero te magoar Zé Comuna, mas o marxismo já era...

Nosso amigo esquerdopácio ouviu minhas palavras e saiu pela porta resmugando algumas esquerdopatias que ninguém conseguiu ouvir. A turma se divertiu com a cena, fizemos alguns comentários e a aula se encerrou. Provavelmente agora cerca de 20 pessoas que nunca ouviram falar sobre Bitcoin vão pesquisar sobre isso e se informar sobre o assunto. E eu dormirei feliz sabendo que um esquerdista que há alguns dias me desafiou a debater sobre marxismo (é como debater com alguém que diz que o Sol gira em torno da Terra) deixou a sala de aula apontando o dedo para mim e comparando Bitcoin com Esperanto. It's happening!