sábado, 24 de outubro de 2015

A vida das mulheres no Norte/Nordeste.

Esta semana estava em uma calçada nas proximidades da Av. Dom Luís, um flanelinha havia me oferecido seus serviços, lavar o carro ao preço de R$10,00, achei que valia a pena e fiquei ali assistindo o seu trabalho ao mesmo tempo que conversava e perguntava a ele o que o dava mais retorno, lavar carro ou vigiar carro. Não gosto de flanelinhas que “vigiam” carro, mas acho que lavá-los é um trabalho digno e de muito valor, inclusive isso rende uma boa grana para brasileiros de classe média que vivem nos EUA. Ele não entendeu a pergunta, apesar de minha insistência, começou a falar aleatoriamente sobre seus clientes e como funciona seu trabalho, confuso, sem ligar bem as ideias.

Enquanto aguardava sentei em uma mureta, já era noite, e eu observava a rua. Na outra esquina oposta à que eu estava havia outro flanelinha, este mais jovem, aparentemente saudável, moreno, de chinelas, com o peito estufado e semblante intimidador. De repente uma jovem desce do ônibus na avenida e vem caminhando rua adentro, sem usar a calçada escurecida pelas árvores, andando rápido pelo asfalto, com cara fechada, cabelo preso, e um ar de guerrilha como quem tem a missão de chegar em casa o mais rápido possível antes que alguma ameaça da selva de pedras a detenha.

Coincidentemente enquanto ela caminha, nosso flanelinha jovem toma o caminho contrário, de forma que os dois se cruzam, estando um em cada lado da rua, separados por aproximadamente dez metros. A distância entre os dois e a introversão da garota não eram suficientes para se evitar algo que é uma constante nas cidades do norte e nordeste (não que isso não aconteça no sul, mas a frequência por aqui é maior). O flanelinha começa a gritar, de forma tribal, tentando chamar a atenção da garota: “Ei! Ei! Ei!”, como um homem-de-neandertal que tenta intimar a fêmea para o coito.

A menina ignora e apressa o passo, o flanelinha continua seu trajeto, agora mais próximo de nós, sorrindo e se divertindo com aquele pequeno prazer de se sentir forte e superior em meio à sua vida miserável. Observei o seu semblante e fiquei intrigado com a naturalidade com a qual aquele indivíduo conduzia seus atos. O que era intransigente e repugnante para mim, para ele era algo comum, que fazia parte de seu dia-a-dia, do seu estilo de vida, da concepção que ele tem de mundo, e da leitura que ele faz da relação entre homens e mulheres.

Se ele fosse um homem branco, provavelmente seria escrachado, condenado, ridicularizado e boicotado. Mas este não é o caso, ele é um brasileiro nativo, possivelmente com alguma influência europeia/africana, mas com certeza a predominância de sua descendência biológica/cultural é indígena. E neste momento você já deve estar incomodada e me achando um racista, simplesmente porque eu fiz uma pequena separação étnica para que possamos entender melhor quais são os valores que circundam nossa sociedade.

A maioria das mulheres que entendem o conceito de “assédio” e sofrem com ele em minha cidade, Fortaleza, são de descendência europeia, e não tem nenhum problema em assumir que sua descendência é europeia, isso não faz de você parte da elite branca paulistana alienada coxinha do mal, provavelmente sua família era muito pobre ao decidir tentar a vida no Brasil. Essas mulheres não só sofrem com os assédios, como também vivem em um inferno psico-social, pelo fato de acreditarem que a sociedade, ou seja, o todo social é machista, intolerante, misógino e todos esses termos que ganharam tanto espaço nas últimas décadas.

Negras e brasileiras nativas também sofrem com isso, porém há uma grande diferença: qual dos grupos étnicos brasileiros chegou a um estágio de desenvolvimento cultural onde a igualdade de gêneros e o respeito à mulher é um valor já consolidado? Sim, você sabe, os ascendentes europeus e eventualmente os cristãos. Não é muito difícil perceber isso, observe como se estrutura a relação de uma família de descendência europeia e uma família de descendência nativa brasileira. Na primeira, normalmente, você perceberá uma relação de igualdade, um verdadeiro companheirismo, onde os dois têm voz, e não raro as mulheres predominam como líderes de suas famílias, sendo responsáveis por decisões finais. Já o segundo grupo você perceberá que outros valores imperam, sendo o resultado deles uma verdadeira submissão da mulher ao seu marido, além de uma superioridade geral do homem frente à mulher, com exceção de alguns grupos como os índios do Alto do Xingu, onde as mulheres forçam os homens a fazerem sexo, tiram sarro e ridicularizam suas fraquezas. Evite generalizações, muitas famílias de descendência nativa têm uma relação muito boa, principalmente aquelas que absorveram certos valores cristo-europeus. Isto não é propaganda religiosa, mas falar sobre a formação cultural da sociedade brasileira sem falar em cristianismo é como falar sobre ciência sem falar em átomos. Por outro lado também existem famílias de descendência europeia que não cultivam a igualdade de tratamento entre os gêneros, o que também é normal, pois durante muito tempo isso também fez parte da cultura do velho continente (cada grupo tem um desenvolvimento diferente e por vezes aleatório).

Portanto antes de falar que uma sociedade é machista, nomes têm de ser dados aos bois, principalmente em uma diversidade cultural como a de nosso país. Este papo de “cultura brasileira” é uma balela, somos um país formado por diferentes grupos que buscam viver fraternalmente entre si por meio de uma legislação comum (característica inerente às Américas), sendo o processo de miscigenação variante e indefinido, concentrando-se nos grandes centros urbanos, tendo seu estágio mais avançado em São Paulo, onde a força da economia e da cooperação voluntária deteriora comportamentos tribais e rivalistas, que são mais comuns em regiões menos desenvolvidas do Brasil, como o norte e o nordeste. Coloque uma família da tribo dos Amondauas em um mesmo ambiente que uma família de descendência russa do interior do Paraná e você verá que o conceito de unicidade brasileira é uma fantasia coletivista, criada por determinados indivíduos visando objetivos políticos, a maior parte deles positivistas, e mais recentemente marxistas (que ao mesmo tempo que dividem a sociedade em grupos, também incitam um sentimento coletivista nacionalista).

A mulher de descendência europeia no Brasil tende a sofrer muito mais que a nativa, pois a ela foi ensinado que existe uma unicidade de valores e que a relação entre homem e mulher deve ser igualitária, e isso vale para não só esta sociedade, mas para o mundo inteiro. Está explicitamente determinado. Portanto, esta mulher, portadora de um implacável senso de justiça, e tomada por determinadas ideias que ela considera verdade, assumirá uma posição de soldado em pé de guerra, e através de sua infinita benevolência trabalhará para difundir a palavra da salvação entre aquelas oprimidas que não conhecem a verdade e não deveriam se submeter aos caprichos de seus tiranos maridos.

O que nossas heroínas se recusam a compreender, é que não há uma unicidade de ideias e de verdade, não há um estágio de evolução final pré-definido para toda a humanidade, e se uma civilização alienígena machista altamente desenvolvida invadir a terra, toda a sua teoria histórica progressista entrará em convulsão. Nossas justiceiras têm dificuldade em compreender que nossa sociedade é formada por grupos diferentes, que sustentam valores diferentes, e consequentemente a relação entre homens e mulheres terá uma grande variação de cultura a cultura. Algumas mulheres nativas brasileiras vão desenvolver um senso de independência e entrar em conflito com a predominância cultural de seu grupo, porém outras mulheres do mesmo grupo vão viver uma vida plena e feliz estando submissas aos seus maridos e inclusive lutando pela manutenção desta estrutura, colocando-se contra aquelas que se mostram rebeldes ao coletivo.

Quando uma mulher é assediada por um homem de descendência europeia isto é um escândalo, pois este homem, supostamente, deve seguir valores europeus e cristãos, isto é o que a sociedade espera dele, isto é o normal, ele deve saber que violar a individualidade de uma mulher é imoral e altamente condenável. Mas quando um homem de descendência nativa assedia uma mulher, mesmo uma mulher de descendência europeia, a visão sobre ele é muito mais branda, porque ele não teve a educação adequada para mudar seus comportamentos tribais, portanto a culpa não é dele, e sim daqueles encarregados de instaurar um comportamento civilizado na sociedade, ou seja, do Estado.

Como atribuir comportamentos criminosos a um grupo étnico é considerado racismo (e de certa forma isto é mesmo racismo, o certo seria avaliar os indivíduos), as mulheres politizadas precisam de uma válvula de escape, principalmente quando seus representantes já estão no poder, e esta válvula de escape é a coletivização deste comportamento, pois agora o comportamento não está sendo atribuído a determinados indivíduos ou grupos, ele está generalizado por toda a sociedade: “a sociedade é machista”. Gerando um grande sentimento de culpa nos homens que nada fizeram e uma espécie de mobilização geral, que na teoria parece ótimo, mas na prática é um desastre, o resultado é que os homens igualitaristas acabam se tornando mais afeminados (nada contra homens afeminados) e extremamente cautelosos em seguir um “código do bom homem não-machista”, e aqueles indivíduos e grupos que são os grandes protagonistas da sociedade machista são protegidos, pois a condenação dos mesmos seria considerada racismo e imposição de ideias. No final, o resultado é uma briga interna entre ascendentes de europeus, em que o flanelinha do início da nossa história dificilmente será influenciado.

Mas com esta breve investigação sendo feita, onde quero chegar? O ponto é que a coletivização do machismo é completamente equivocada, e as mulheres politizadas lidariam muito melhor com a diversidade da sociedade em que estão inseridas se entendessem que este país é formado por diferentes grupos, ou melhor, por diferentes indivíduos. A mulher que mora em uma grande cidade do norte e do nordeste, deve compreender que ela não está inserida em um ambiente europeu, como possivelmente é em sua casa ou qualquer lugar onde ideias europeias da relação entre homem e mulher predominam (como em uma casa de família afrodescendente cristã ou de alguma forma europeizada). A mulher cearense sofre muito mais com machismo e assédios do que a mulher gaúcha, até porque os gaúchos exterminaram grande parte da população nativa ao ocuparem o Rio Grande do Sul. Repare, eu não estou dizendo que os europeus não são machistas, mas a submissão da mulher de descendência europeia é muito menor ou inexistente em relação à mulher de descendência indígena ou afrodescendente. 

Se uma mulher bem aparentada for a um estádio de futebol em São Paulo, Belo Horizonte ou Curitiba, e depois for a um estádio de futebol em Fortaleza, Belém ou Recife, perceberá uma diferença gritante no tratamento que receberá dos homens (isso variando de setor pra setor, é claro). Isto não quer dizer que os sulistas são superiores, isto apenas indica uma predominância de grupos culturais diferentes, o sul é mais europeizado e o norte/nordeste é mais nativo. É possível introduzir uma ideologia de igualdade de gêneros nesta população nativa, mas isto demorará décadas para ter resultados, pois a superioridade masculina faz parte da formação cultural deste grupo há séculos, talvez milênios. O pudor de se evitar olhar diretamente para partes íntimas de mulheres é muito mais comum nos europeus do que nos nativos sul-americanos, os europeus se condicionaram a este comportamento, por outro lado, os árabes acharam mais conveniente uma cultura onde a estrutura física da mulher é ocultada por uma vestimenta dos pés à cabeça, e não pela “correção” do comportamento masculino.

O sofrimento da mulher urbana nordestina parte de uma completa indisposição social, onde os seus valores só predominam dentro de casa e em ambientes privados (escola, clube, grupo religioso etc), diferentemente do que acontece em espaços públicos como ruas e transporte coletivo, por exemplo. Mas o que mais agrava esta situação é que o predomínio da cultura coletivista faz com que essas mulheres exerçam enormes expectativas civilizatórias na população nativa (o que ainda levará décadas para acontecer), quando uma mulher de descendência europeia é cantada por um flanelinha nativo, o resultado é, não só o medo, mas uma perturbação, porque além de sofrer o assédio, ela não pode retaliar e/ou condenar o responsável pelo ato, pois isto seria considerado racismo, e no Brasil, diferentemente dos EUA, a diferenciação de grupos étnicos fere o politicamente correto. A mulher branca americana evitará utilizar o transporte público de bairros afrodescendentes, e isto é um direito dela, pois a integração não é obrigatória em um país onde se respeita as liberdades individuais, este não é o caso do Brasil, onde assumir um posicionamento étnico europeu é uma imoralidade, este privilégio só pertence aos afrodescendentes e indígenas, caso você pertença a esses grupos, tem total liberdade de exercer o seu orgulho e diferenciação.

A minha intenção com este texto não é combater o machismo, pois acredito que o desenvolvimento de uma cultura igualitária entre os gêneros é algo natural, que a partir de algum momento será predominante no Brasil, não que isso seja uma verdade absoluta, pois o desenvolvimento humano é imprevisível. O meu real objetivo é oferecer um ponto de vista mais descentralizado sobre a relação entre homem e mulher em nossa sociedade, rompendo com o politicamente correto e oferecendo uma visão mais específica sobre as origens do machismo em nossa sociedade, na tentativa de isentar as mulheres do fardo coletivista que gera tanto mal-estar. A forma como esta questão é tratada nesta parte do Brasil sofre com certa contradição, pois ao mesmo tempo em que o machismo é condenado, os maiores responsáveis pela cultura machista são protegidos, e isto é só um exemplo sobre como o assunto é tratado incoerentemente para que deslizes ideológicos sejam evitados.

Para viver melhor nesta sociedade, a mulher nordestina precisa de uma compreensão mais abrangente do que a pura agenda feminista que é aplicada a qualquer país e qualquer esfera. Ela precisa compreender que seus valores (europeus) não são predominantes, e que esta mudança é gradual e lenta, não adiantando muito suas intervenções enérgicas em seus próprios grupos privados (como em suas redes sociais, repletas de pessoas que compartilham os mesmos valores). Em outras palavras, viver nesta parte do país não é o mesmo que viver na França, Londres ou Berlim, ou ela entende a conjuntura deste ambiente e se dedica a uma mudança gradual, ou ela viverá com a cólera da revolta por toda sua existência (caso de algumas feministas), ou mesmo terá que se mudar para outras partes do país ou do exterior, como fez minha irmã, que mora em outro país há dez anos, entre outros fatores, por não se ajustar à cultura predominante local. No mais, uma melhor compreensão da composição social de nossa região e um posicionamento mais firme contra os grupos de culturas divergentes daquela que sustenta a igualdade de tratamento entre os gêneros, seria de grande benefício para que as mulheres sedentas por justiça continuassem a sua empreitada de uma forma mais racional e menos politicamente correta, dando nomes aos bois e evitando que mais injustiças fossem elevadas ao patamar de “luta pela igualdade”.