sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

Beleza Natural.

De todas as belezas, sem dúvida a que mais me fascina é a beleza natural, a beleza do mundo como ele é. Não tenho dúvidas de que a manipulação do engenho humano pode tornar cenários selvagens em realidades mais belas, porém caso não houvesse um humano sequer habitando este planeta, a beleza que aqui jaz seria suficiente para arrebatar qualquer ser.

Às vezes tenho vontade de parar alguém na rua, agarrar seu braço, pedir para que pare por um momento e apenas observe o céu, contemple a grandeza e o belo azul que ampara o branco dos gases de nossa atmosfera, que se movimenta com leveza formando nuvens em formas das mais variadas, onde a luz do pôr do Sol repousa para nos presentear com o espetáculo do crepúsculo, que nos paralisa e nos mostra todos os dias que a vida vale a pena ser vivida, assim mesmo, por si só.

Deus fez um mundo rico e para nós ainda complexo, porém ao mesmo tempo simples e elegante, de forma a amparar todas as almas que o habitam, quanto mais nos juntamos a esta realidade, mais nos aproximamos de algo que parece ser a verdade, e o que sinaliza esta verdade é a paz, que invade os corações e nos coloca como inteiros, como parte de algo maior, como ligados a tudo que se vê, e tudo que se sente.

domingo, 10 de janeiro de 2016

Carta de um Mineiro à Montanha.


Querida montanha, 

Já não consigo contar os dias em que este destino me obrigou a deixá-la enquanto meu coração sofria em prantos o gosto amargo da despedida. Mal posso conter meu dissabor ao perceber que as memórias de tua magnificência estão a esvaecer no tempo, tempo este que me arrasta à sarjeta sombria desta saudade constante que me transforma num ser vacilante.

Por vezes me pego apreciando as fotografias que ainda tenho daqueles dias em que você se exibia exuberante aos meus pequenos olhos, mas nada me consola mais do que a possibilidade de voltar ao teu seio e repousar minha alma em teu materno amor. Procurei em outras terras tua ternura, encontrei as mais belas das paisagens, e não nego que fui bem tratado, mas hei de confessar que nenhuma era como você.

Talvez pelo fato de ter me recebido neste mundo, e não sei se a escolhi ou você me escolheu, mas em verdade digo que existe algo entre nós. E digo sem temor aquilo que se passa em meu coração, dos sentimentos arrebatantes que despertam minha emoção, pois não importa onde e como a vejo, basta saber que você está próxima para que minha alma crie asas e todas as causas terrenas sejam dispersas pela esfera de deleite que de pronto adentro.

Não nego as benesses que este mundo me deu, a limpidez do céu e a infinitude do mar, esta dupla que por décadas me amparou, como pais adotivos que nada deixam faltar. Entretanto, minha querida, nada toma seu lugar, pois que minha alma desperta só de pensar, na tua beleza majestosa, tua presença sublime, tua paz que me convida à eternidade que aqui já não posso encontrar.

Oh minha, não sei se o que sinto é o desamparo de um filho ou a angústia de um amante, mas temo que nada será mais belo para mim nesta terra distante. E ái daquele que ouse nos zombar, não compreende a dor que é de um mineiro longe de seu lar. Querida montanha, aguarde por mim, pois por mais que pareça ainda não te esqueci. Os sonhos não bastam para me consolar, calçarei minhas botas para lhe reencontrar.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

Do Divino ao Banal.


Ele permitiu ser conduzido pelo sagrado, aquele sagrado que somente era tocado ao passar pela purificação do sentimento mais verdadeiro que unia os dois. E naquela condição não havia espaço para as tribulações mundanas, tudo pertencia ao divino e ao belo, somente o deleite incessante o movia à serventia eterna daquele amor.

Em meio ao caos terreno aqueles momentos contrastavam um resplendor que arrebatava a sua alma, entorpecia a razão e retirava todos os obstáculos da carne que se colocavam entre a Terra e o Céu. Não havia sofrimento enquanto se levitava para a libertação do que havia entre os dois.

Porém de cima das nuvens um ser de poder apontou para ele, e disse que o que merecia já lhe fora dado, e que o mundo dos homens o esperava para o trabalho que o livraria de seus pecados. Daquele momento em diante não haveria mais Céu, todo o amor, todo o sagrado, seria eclipsado, para depois, num golpe cruel, ser brutalmente suplantado, não deixando nada, além do frio mórbido destinado àqueles que tomaram o caminho errado.

E de repente tudo se apagou, e a divindade insubstituível se tornou um mero apetrecho do mundo dos homens, um bem trocável, que zomba arrogante da beleza onirica que antes se fazia presente. E seu coração se fechou, não vislumbrando nada mais que o oferecesse aquele olhar e aquela música em que ela o aprisionou.