quinta-feira, 29 de junho de 2017

Hoje sei.

E se esta existência não passar de um turbilhão de eventos aleatórios aos quais rogamos por clemência ao tempo que agonizamos na dúvida do que está por vir? Seríamos como Robinson Crusoé, isolados, apreensivos, sobrevivendo de acordo com as duras circunstâncias que se apresentam, incessantemente feridos pelas adversidades do acaso, eternamente sedentos pela completude que parece termos deixado ao aqui nascermos, como cavaleiros desertados, sem espadas e sem armaduras, incumbidos de explorar as terras mais inóspitas em busca de algo que nunca é encontrado.

Aventura, prazer, sensações, amor? Verdade? Talvez uma criança pudesse nos dizer. Curiosa criatura que nunca esvai suas energias, que se machuca, mas se recusa a sofrer, pois parece enxergar o que nós, brutamontes, não enxergamos. Enxergam a vida pulsando, veem a beleza estampada nas coisas mais simples, nas coisas mais despercebidas. Brilham, enquanto nós morremos, nós que andamos como seres vencidos, decadentes, cambaleantes, ingratos.

Somos ingratos, pois não sabemos pelo quê agradecer. Saberíamos, se nossos olhos não estivessem tão cheios de impurezas, ofuscando todos os canais que nos ligam a este e aquele mundo, ocupados com as mais deletérias frivolidades, aprisionados nem dentro e nem fora, pois que haveria muita beleza no mundo interior, assim como certamente há no mundo exterior, porém me parece que não estamos em lugar algum, que fomos arrancados de nossa natureza, que nos tornamos criaturas previamente pensadas por um ser tão viciado quanto nós mesmos, e não por aquele já consagrado por ser a origem de todas as coisas.

Estamos apalpando um nada, estamos idealizando a morte, não porque comprometemos a vida de nossos corpos, mas porque cultuamos a queda de nossas almas. Fugimos da essência e nos curvamos ao espetáculo, à utopia, à promessa de tudo aquilo que foge da realidade, às aparências da perfeição. Ora, não há maior animosidade do que negar os próprios grilhões e se lançar desprevenido às torrentes da falsa liberdade, eterno miserável é aquele que não conhece a si próprio, aquele impaciente que salta todas as etapas, que procura atalhos onde não há, que lança mão do caminhar sereno e sai a cantarolar conquistas que desdenhoso julga insuperáveis.

Oh, Deus. Se me desses a chance de voltar no tempo, se me permitisses reviver as pequenas tarefas às quais nada dediquei se não a mais insolente negligência, ignorância e torpeza de espírito. Sempre buscando os atalhos, os caminhos mais fáceis, o néctar insosso dos resultados sem merecimento, das ignóbeis trapaças que se disfarçavam com as honrarias da mais pérfida destreza de meus talentos, talentos que me deras para o bem, para que adornasse minha existência com a bela coroa da persistência laboriosa. Enganava-me, hoje sei.

Não há juiz mais severo que a consciência, e tu colocastes Senhor, em cada homem, o senso implacável daquilo que é bom e é belo, e mostrastes sem hesitar que mais vale um indigente honrado que um imperador corrompido, e por mais que tantos já o tenham repetido, ainda assim vale ressaltar vossas palavras, pois que a verdade é seiva eterna que nos anima a alma, e que não padece como as atribulações ruidosas de nossos tempos. Hoje sei.

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